memória dos bois


 

dos bois a memória

 

 

a faina começa
o boi aguarda que chegue a sua vez

o barco faz o lanço
e regressa à areia
então o chocalho toca
suave

depois é a vez das redes
lento e forte vai puxando
e o chocalho não se ouve
o passo é forte miúdo

súbito as bóias
é preciso ser rápido
para não se perder o peixe
as juntas correm
os homens gritam
todos ajudam a chegar ao saco

então o chocalho canta
uma música única corre pela areia
venha peixe ou não
a música chega à exaustão

(torreira)

caetano e o bordão


ti caetano da mata

 

(um dos instrumentos mais antigos da xávega é o “bordão” – tem este nome na praia da torreira e de “estacadão” na praia de mira)

vergam-se as costas
ao peso das cordas
esticam-se os dorsos
ao brilho do sol
no amparar das mangas
quando vêm do mar

pendura neles o pescador
o farnel
o casaco
apetrechos vários

pesados fardos o bordão
de ombro a ombro carregava
cordas, canastras de sardinha
de ombro a ombro
de homem a homem

são eles que definem as fronteiras
que separam quem trabalha e do saco
tira o pão
de quem em férias, pensa que o trabalho
dos outros
pode caber em sacos de plástico
enchendo-os de peixe que do saco
salta na última esperança
de liberdade

( torreira – companha do murta – caetano da mata)

Comentarios

as mãos e os peixes, pão são


as mãos e os peixes

 

de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão

mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão

(praia de mira, companha do zé monteiro)

o nó


 

 

o nó

 

por vezes, durante o alar das redes as cordas  formam nós – estranhas mãos que mar no moram.

é preciso que o nó seja desfeito antes de chegar ao alador, que poderá encravar e fazer parar toda a alagem.

os movimentos são rápidos, seguros, fortes, sentidos.

 

de um simples nó, pode resultar a perda de um lance.

 

manuel castelhano. presente!


 

manel castelhano

ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista

a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“

assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão

vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local

( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.

falo da torreira)

xávega – o saco e a zorra


depois de se ter tirado todo o peixe do saco, de o limpar bem e sacudir é preciso carregá-lo na zorra ( espécie de trenó para areia), para o levar para seco, estendê-lo na areia e deixá-lo a secar.

depois de seco estará pronto a ser de novo carregado no barco (aparelhar) e a iniciar nova faina.

o transporte é sempre feito por recurso à zorra.

assim é na torreira, na praia de mira o esforço é feito por um tractor com um braço grande e colocado o saco num atrelado.

de praia para praia as técnica mudam. as designações também. falamos de designações, práticas e experiências que variam de praia para a praia, embora a arte de pesca seja a mesma e em pouco mudem os procedimentos

o saco e a zorra (I)

o saco e a zorra (II)

o saco e a zorra (II)

companha do pepolim


ir ao mar

vieram do furadouro pescar para os mares da torreira.

estabeleceram-se ao sul do molhe sul. o arrais, conhecido na torreira por “chico de ovar” é da família giesteira do furadouro, responsável pelo reerguer da xávega em medados do século XX na praia do furadouro.

o chico, não me canso de o repetir, é o melhor arrais que alguma vez vi trabalhar.

poema do barco


o óscar miguel (barco) com o rodrigo na proa
é de água a minha terra
terra o meu fim

carcaça
descansarei um dia
na imensidão da areia

com o tempo
desfeito
serei levado pelas marés
ou queimado na fogueira

entre água terra e fogo 
me cumpro

ser barco
é ter sido para voltar a ser

é de água a minha terra
terra o meu fim