meu nome é boi


bois de força – marinhões

meu nome é boi
nosso nome é junta

puxamos barcos e carros
carregamos peixe e redes

carne e músculos tensos
olhos desmesuradamente grandes
mansos até ao inadmissível

juntos
somos força somos junta
somos bois

sozinhos
no talho no mercado
esquartejados em carne viva
somos vaca

boi é e não é
é sempre o homem que decide

bois de força – marinhões

(torreira; séc. XX) – do meu livro “quando o mar trabalha

inês amorim _ artes novas


joão vasques

A ESTRUTURA DAS “ARTES NOVAS” DA COSTA DE AVEIRO, AO LONGO
DA 2ª METADE DO SÉC. XVIII: MÃO-DE-OBRA, DIVISÃO DE TRABALHO,
FORMAS DE PROPRIEDADE E DIVISÃO DO PRODUTO*
Inês Amorim
Professora Auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto,membro do Instituto
de História Moderna da mesma Faculdade
Trabalho elaborado no âmbito do Projecto PCSH/C/HIS/108/95: Estruturas sócio-económicas e
industrialização no Norte de Portugal (sécs. XIX-XX).
Siglas: AA – Alfândega de Aveiro; ADA – Arquivo Distrital de Aveiro; “ADA” – Revista O Arquivo do Distrito de
Aveiro; AMA – Arquivo Municipal de Aveiro; ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo; BAJ – Biblioteca da
Ajuda de Lisboa; Cx – Caixa; DP – Desembargo do Paço; JC – Junta do Comércio; LR – Livro de Registo; LV –
Livro de Vereações; MR – Ministério do Reino; SN – Secção Notarial.
ANTROPOLOXÍA MARIÑEIRA
Actas do Simposio Internacional
in memoriam Xosé Filgueira Valverde
Pontevedra
10-12 de xullo, 1997
Presidente de Honra
ANTONIO FRAGUAS FRAGUAS
Coordinador
FRANCISCO CALO LOURIDO

A ESTRUTURA DAS “ARTES NOVAS” DA COSTA DE AVEIRO, AO LONGODA 2ª METADE DO SÉC. XVIII: MÃO-DE-OBRA, DIVISÃO DE TRABALHO,FORMAS DE PROPRIEDADE E DIVISÃO DO PRODUTO*Inês AmorimProfessora Auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto,membro do Institutode História Moderna da mesma FaculdadeTrabalho elaborado no âmbito do Projecto PCSH/C/HIS/108/95: Estruturas sócio-económicas eindustrialização no Norte de Portugal (sécs. XIX-XX).Siglas: AA – Alfândega de Aveiro; ADA – Arquivo Distrital de Aveiro; “ADA” – Revista O Arquivo do Distrito deAveiro; AMA – Arquivo Municipal de Aveiro; ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo; BAJ – Biblioteca daAjuda de Lisboa; Cx – Caixa; DP – Desembargo do Paço; JC – Junta do Comércio; LR – Livro de Registo; LV -Livro de Vereações; MR – Ministério do Reino; SN – Secção Notarial.ANTROPOLOXÍA MARIÑEIRAActas do Simposio Internacionalin memoriam Xosé Filgueira ValverdePontevedra10-12 de xullo, 1997Presidente de HonraANTONIO FRAGUAS FRAGUASCoordinadorFRANCISCO CALO LOURIDO

http://www.consellodacultura.org/mediateca/publicacions /antropoloxia_mar.htm

artes novas – ines amorim

falemos de xávega


(praia de mira; 2009)

xávega etimologicamente tem raiz árabe: “xabaka”, que quer dizer “rede”

em termos genéricos é o que podemos chamar uma “arte de arrastar para terra”, tal como o “chinchorro”.

em 1774 é publicada em madrid a “memoria sobre la pesca de sardina en costas de galicia” de d. josef cornid saavedra, “regidor de la ciudad de santiago”.

nesta memória, cuja edição facsimilada me foi amavelmente oferecida pelo “museo do pobo galego”, é definida de forma clara a diferença entre as duas “artes de arrastar para terra”: chinchorro e xávega.

– chinchorro : rede de malha quadrangular, sempre com as mesmas dimensões e em forma de funil

– xávega : rede de malha quadrandular, composta por duas mangas e um saco. a malha tem maior dimensão junto ao calão e vai diminuindo até ao saco.

ou seja: é o formato da rede que caracteriza esta arte de pesca e não o barco, como alguns pretendem

a xávega noutras regiões do globo:

sul de itália : sciabica
catalunha: jabega
galiza: xabega

à memória do ti borras – nascido manuel maria da silva, patacas


(torreira; anos 90; a espera para ver e comprar)

virado para o mar
olhando o longe

recordo o ti borras
pescador de outros tempos
do barcos de quatro remos
de tantas juntas
que não conhecia mar que o impedisse
de trabalhar

se o mar fosse de vinho
ia a pé até à américa
dizia

recordo o ti borras
pescador e senhor dos mares
recordo e não vejo lembrança dele
ficou um beco com o seu nome
que se apagará no tempo

que começa a apagar-se

o tempo não pode ser deixado a si próprio
ainda não atingiu a maior idade

alberto estrela (aos amigos que partiram)


(alberto estrela; torreira; 2006)

boa noite estrela

soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela

a frase continua a martelar-me
a cabeça

que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas

sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos

vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal

e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos

um abraço do teu amigo

cravo

a caldeirada


(muito resumidamente)

quando em 1751, segundo a prof. inês amorim, a xávega chega a portugal, mais precisamente à costa do furadouro e torreira, já os pescadores da ria iam ao mar, à sardinha, com grandes chinchorros.

o fechamento da barra da ria, só reaberta em 1808, fez com que os pescadores da ria levassem as suas artes para o mar e nele lavrassem a sardinha que abundava.

com o aparecimento das traineiras e, mais tarde, com a utilização do cerco americano na pesca da sardinha, é feita uma “limpeza” na costa e as companhas passam por momentos de crise e reconfiguração. muitas desaparecem.

era então comum, e foi-o durante muito tempo, uma retribuição em espécie (peixe) aos pescadores – a caldeirada, quinhão, rapola, teca (no sul).

hoje em dia, nas companhas que restam, já não é a sardinha a fonte de riqueza, mas sim o carapau. a retribuição em espécie, como regra, desapareceu e o normal é os pescadores levarem para casa, para o almoço ou a janta, peixe de pouco valor comercial.

neste caso, o dono da companha, josé monteiro, resolveu distribuir uma caixa de carapau por todos os membros da companha.

assim, fizeram-se 18 montes, que se foram acertando até ficarem praticamente todos iguais.

(praia de mira, companha do zé monteiro; 2009)

óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste