o arribar em dois momentos


1º momento

e todos se salvaram

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

2º momento

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

(torreira; 2010)

como é belo o fim do dia ou o que tu não viste quando olhaste


arrumadas as artes
o barco adormece suavemente
nos braços da areia

uma gaivota
perde-se no longe antes
de lhe vir fazer companhia

na tasca os homens convivem
recordam histórias antigas
jogam às cartas e ao dominó
entre dois copos de três
três copos, quantos
a noite é longa

na barraca
na casa económica
aguardam a mulher e os filhos
é ela que guarda a casa
que garante que este barco não se afunda

como é belo o fim do dia

(torreira; 2008)

pelo na venta


ermelinda bitaolra

(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)

tem pelo na venta
dizem

é duro viver aqui
arrancar com as minhas mãos
o pão ao mar
ser como o meu homem
sem favor de ninguém

o sal queima e endurece a pele
envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece

tenho pelo na venta
sim
quem o quiser negar
que venha ver
trabalhar o mar

a companha por herança


                                                                    bruna murta e marlene murta

 

o falecido zé murta, deixou 4 filhos, uma neta e um pedido: não deixem morrer a companha.

a marlene sempre foi uma rapariga de trabalho e a responsável, desde que a conheço há muitos anos, pela contabilidade da companha, além de trabalhar no alar das redes, no conduzir dos tractores.

a sobrinha, bruna, de 3 anos, já segue as pisadas da tia. o ano passado já andava com as mãozitas nas cordas e este ano já a vi escolher peixe e separá-lo para as caixas certas.

apanhei-a, neste instantâneo, a imitar a tia no fazer das contas, cadernito na mão.

descansa zé, a companha continua.

(murtosa – torreira – companha do murta)