neste registo um dos membros da companha solta o arinque para que não perturbe o alar.
depois levá-lo-á para perto do barco
(henrique da bóia; torreira; anos 90)
há quanto tempo não sonho afinal o mar não é de vinho e o ti borras nunca foi à américa ficámos onde nascemos lembro-me de criança ainda ajudar a minha mãe na escolha do peixe ver no meu pai o eu de amanhã as dunas eram então o meu esconderijo agachado no seu ventre espreitava o futuro era o mar que me chamava

sou a que nunca ficou em casa nunca foi ao mar sou a que ajuda a empurrar o barco a que o espera em terra sou a que escolhe o peixe e entre duas picadas de peixe aranha se levanta e nasce na areia um outro rio sou a mãe a mulher a filha a viúva sou a mulher da arte que a arte não lembra
(torreira; anos 90)
(despeço-me do óscar miguel)
óscar miguel
era assim
qual gaivota prestes a levantar voo
preparadas as cordas
as redes a caminho
que
de asas abertas o óscar
iniciava os seus voos
era este o seu mar
o leito por onde corria
o sangue de ser barco
a xávega
perdeu um filho
o mar um amigo
e todos ficámos mais pobres
o óscar miguel
era barco
mas é com um abraço
que lhe digo
até às ondas irmão
o bordão
agora apoio
do corpo cansado
o saco de plástico
os cigarros e o isqueiro
resguardados
o homem do mar
o ti miguel bitaolra
amigo de muitos anos
senta-se agora
na cadeira
da ti rosa
onde o mar escorre
e a companha se junta
para falar da safra
do futuro
do passado
beber um copo
jogar dominó
uma sueca
continuar viva
porque é importante saber de que falamos quando falamos, é importante fazer aquilo a que os sociólogos chamam “operacionalização do conceito”, este é um dos textos linguísticos que melhor encontrei para ir até à raiz e, a partir dele, embora em castelhano, se fale de xávega sabendo o que é.
contributo que aqui deixo e que recolhi na net, embora não citando o link, está perfeitamente identificada a autoria e, com recurso a qualquer motor de busca encontrável.
continuemos a falar do bordão
na praia da torreira, na hora da partida, o barco é seguro por 3 cordas e a muleta (de madeira)
as cordas são:
– o reçoeiro, extremidade da corda (cala) que, ligada à rede fica em terra, e enrolada na bica da ré é manejada pelo arrais no segurar do barco
– a regeira da ré, também enrolada à bica da ré e mantida firme por um grupo de homens e mulheres
– a regeira da proa, presa por vezes a um dos golfiões da proa, e que é presa, em terra, a um bordão que é enterrado na areia.
desta forma se mantém o barco perpendicular à praia, fazendo frente às ondas sem risco de virar.
o ti antónio, que já lá vai noutros mares, era sempre, na companha do marco, o homem que levava o bordão da regeira da proa, o enterrava na areia e fazia.
de poucas palavras, como o bordão que tão bem conhecia.
até sempre ti antónio, neto de apelido, de que conheci o pai e cujos sobrinhos netos, que filhos não os teve, continuam na faina da xávega
(torreira; 2009)