crónicas da xávega (121)


contar porquê

0bs ahcravo_Scan20112 carregar a corda

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)

começa um ano
continua o tempo

por sobre a areia
nem pegadas
que o vento

das gentes pó
a areia o mar
a memória

fica o retrato a falar
do que perdi a conta

tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda

não conto nada
registo o que posso

(torreira; século XX)

 

crónicas da xávega (119)


prefiro a carne ao peixe

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a compnha espera

aqui longe sei que
é esta a gente que se ajoelha
perante um deus invisível
e não se curva diante do mar

a névoa cobriu tudo e adivinhar
o mar não é arte é loucura
nestes momentos oiço-os dizer

prefiro a carne ao peixe

ahcravo_DSC_4296

como se inverno em agosto

(torreira; companha do marco; 2014)

 

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)

recriação da xávega na vagueira em 2008


 

quando os motores eram de carne

quando os motores eram de carne

apesar dos interessantes registos que podem ser conseguidos durante uma recriação, fundamentalmente para quem nunca assistiu à prática mais antiga da utilização das juntas de bois ( na torreira, creio que até ao anos 2000) ou nunca fez registos digitais desta dura, mas belíssima arte, a organização deve ter em conta o processo global e não só os instantes.

os momentos finais desta recriação não traduziram a realidade que a memória preserva: os momentos em que as juntas esperavam o regresso do barco, para o voltarem a puxar, foram utilizados para diversão no mar – passeando crianças no dorso dos bois, por exemplo.

felizmente só assisti a esta distorção da realidade, que até pode ser muito divertida, nesta recriação. quer em espinho, quer na torreira, houve o cuidado de recriar a tradição sem a distorcer.

esperemos que em 2014, haja recriação, como é hábito, em espinho e se continue, o iniciado em 2013, na torreira

 

 

súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto