crónicas da xávega (129)


o meu amigo luciano

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um dos momentos mais arriscados para os pescadores de terra, é o prender dos ganchos nos arganéis do barco, no momento de arribar.

ou quando já com o barco no mar é preciso trazê-lo de novo para terra e esperar por nova oportunidade.

neste registo qualquer uma dessas situações pode estar a acontecer, se o arrais tiver decidido arribar de popa.

tractores, arrais, pescadores de terra e mar, têm de ter em atenção não só as ondas, como a possibilidade de um movimento lateral do barco lhes esmagar as pernas.

o luciano, não grita por medo, grita para orientar o tractor, provavelmente para lhe dizer que está preso o gancho porque é responsável e que puxe o barco para a praia.

 

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(torreira; companha  do marco; 2009).

crónicas da xávega (128)


são pescadores

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o chegar do saco

há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste

há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido

oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia

perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles

são ninguém
são gente
são pescadores

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há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam

(torreira; companha do marco; 2009)

sou tudo o que aqui encontras: vídeo do lançamento


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no dia 3 de setembro de 2015, foi o lançamento do livro “sou tudo o que aqui encontras” no monte branco café, na torreira.

apresentado pelo dr. diamantino moreira de matos e por mim, aqui fica o registo possível, mas integral, do acontecimento.

 

 

crónicas da xávega (123)


da raiva

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podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa

pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres

pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto

porquê

por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens

fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos

amarelecida espuma

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(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (122)


até um dia

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o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro

maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia

os pés

espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar

um dia

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(torreira; companha do marco; 2012)

um lanço de xávega


sem quaisquer pretensões fílmicas, apenas documentais, procurei registar os diferentes momentos de um lanço de xávega: largar, arribar e aparelhar.

o registo foi feito na praia da torreira, no dia 30 de agosto de 2015, com a companha do arrais marco silva e no barco de mar de mar “maria de fátima”

procedimentos no mar:

– largar o reçoeiro
– largar o arinque do calão do reçoeiro
– largar a manga do reçoeiro
– largar o saco e a calima ou calime
– largar a manga da mão de barca
– largar o arinque do calão da mão de barca
– largar a mão de barca

no arribar notar o modo como o arrais enrola cala da mão de barca na bica da ré, para segurar o barco enquanto espera a onda, ou as ondas, que o hão-de levar a terra “surfando”.

procedimentos no aparelhar:

– a rede fica entre o paral (antepara) do motor e o primeiro traste (traste da ré)

– a cala do reçoeiro fica por cima da rede

– a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa

– o saco dá a volta ao barco pela ré e assenta no paneiro da proa

sequência:

– manga da mão de barca
– saco
– manga do reçoeiro
– cala do reçoeiro

em paralelo: cala da mão de barca

cada camarada sabe qual a tarefa que lhe cabe em cada um destes momentos e todos funcionam como uma companha.