crónicas da xávega (139)


aos que trocaram o certo pelo incerto

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aqui se mostra portugal

falo do mar e dos homens
falo de nós
não dos dos brandos costumes

de nós
dos que desafiaram o sonho
para o tornar realidade

de nós
dos que inventaram ser maiores
que a terra onde nasceram
e partiram para serem
o que lhe negavam

falo de nós
dos que trocaram o certo
pelo incerto

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repito-me: são estes os homens que o hino canta

(torreira; companha do marco; 2010)

crónicas da xávega (138)


ti antónio neto

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como sempre, calado a olhar para o longe

escrevo mar memória
cansaço vida morte
conto o tempo
os dias onde já não

sei ti antónio
que já partiu

tarefa pesada esta
de carregar certos dias
como se menos um

recordo então os rostos
dos que partiram
vejo-os sorrir de novo
reinvento o tempo
um tempo de sol e mar
o nosso tempo

revejo-o  ti antónio

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ao mar ao fundo continuará sempre

(torreira; companha do marco; 2009)

crónicas da xávega (136)


pelo pão de cada dia

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o mestre de redes e o saco

no chão estendido
um véu rendado
é manto que cobre

homem e mar unidos
na malha dos dias
onde sol sal areia e suor

se fundem num só corpo
por debaixo das nuvens
nos caminhos percorridos

pelo pão de cada dia

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como se um véu de noiva o saco nas mãos do cebola

(torreira; companha do marco; 2010)

as maõs e os olhos do mestre das redes, o cebola,  percorrem o saco em busca de rombos

crónicas da xávega (135)


quisera-me lá

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o arribar do calão do reçoeiro

haver ainda mar
por onde olhos
se perdem

se esvai
a raiva imensa
de saber que homens
lobos de homens

sou areia onde espuma
chega-me o sal aos olhos
navego para longe

quisera-me lá

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o delmar à direita e o ti augusto de boné ao fundo à esquerda

(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (131)


aparelhar da mão de barca

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e não são de cânhamo estas cordas

o massa e o bruno colocam um rolo de corda da mão de barca dentro do barco.

a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa

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encontram-se as mãos no esforço, a companha é isso mesmo

(torreira; companha do marco; 2009)

crónicas da xávega (130)


muleta, mão de barca, regeira

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anda areia no ar junto com poalha de água

recordando

quando os barcos eram “empurrados” por uma  muleta como a que se vê nesta foto, o barco era mantido na perpendicular à praia, com a ajuda de duas cordas:

– a mão de barca, cala do aparelho que ficava em terra, que o arrais amarrava à bica da ré e ia largando conforme as possibilidades e as necessidades

– a regeira, corda presa ao golfião de bombordo da proa e que estava preso a um bordão enterrado na praia e da responsabilidade de um camarada da companha (enquanto foi vivo e lá trabalhou, era o ti antónio neto que o fazia)

a terceira corda que se vê na foto é a que está amarrada à muleta, para quando o arrais a soltar poder ser recuperada para terra.

vê-se areia por todo o lado porque o motor está a trabalhar e quando a onda recuou deixou-o em seco e o barco não largou como era de esperar.

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a cores as cordas são bem visíveis

(torreira; companha do marco; 2009)