temer e ousar

a difícil arte de arribar
tratar o mar por tu
é arte de poucos
saber antigo
feita de
temer e ousar

só quem não sabe pensa que é fácil
(torreira; companha do marco; 2010)
temer e ousar

a difícil arte de arribar
tratar o mar por tu
é arte de poucos
saber antigo
feita de
temer e ousar

só quem não sabe pensa que é fácil
(torreira; companha do marco; 2010)
panamá

o saco chega à praia
é verdade pá
não conheço nenhum pescador
com conta no
panamá
só encontro
uma resposta
trabalho duro
não dá
p’ra ter conta
no panamá

trará peixe? o resultado é sempre incerto
(torreira; companha do marco; 2009)
dos euzinhos

que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa
escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia
mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais
lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar
não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si
euzinhos

(torreira; companha do marco; 2009)
até um dia

o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador
não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles
são o silêncio
o murmúrio
a resignação
falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será
esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles
têm no rosto escrita
a vida
até um dia
serão apenas
o país profundo
até um dia

dar-lhes voz
(torreira; companha do marco; 2013)
o cinismo reina

mãos de mar, mãos de trabalho
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado
as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos
porque não algemam
as mãos que fazem armas?
o cinismo reina

mãos salgadas, mãos de pão
(torreira; companha do marco; 2013)
tarda o sol

na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem
há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem
apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos
o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe
tarda o sol

(torreira; companha do marco; 2009)
crescer com a xávega

não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem
trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram
o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos
não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

(torreira; companha do marco; 2013)
para o meu amigo joão rodinhas

bem vindo às terras do sol
onde o pão parco
nascer na torreira é ser mestre
de todos os mares
senhor de saberes herdados
caminhos por fazer
parte-se para regressar
à ria ao sol e ao mar
até quando joão?

(torreira; companha do marco; 2009)
resistir

o ti américo na manga do reçoeiro, no alador
a manga no alador
corre
o fim do lanço quase
os anos pesam
mais a rede
mais a necessidade
a língua espreita
o esforço
as ganas de continuar
um homem não é
uma máquina
resiste resiste resiste
está vivo muito

conhaque é conhaque, serviço é serviço
(torreira; companha do marco; 2015)

não sei de regressos
sei de chegadas
de partidas
esperar é destino
de quem em terra
chegam os outros
os que partiram
todo o homem
é uma viagem
chega para partir

(torreira; companha do marco; 2015)