infantário da xávega


filhos da xávega

 

é este o meu infantário

sou só olhos
pernas não sei
palavras não tenho

sou só olhos
à minha frente o mar
o meu pai no barco
o barco no mar
a minha mãe nas redes
as redes em terra
todos no peixe

tudo isto vejo
em tudo me perco e não entendo

amanhã
ali estarei sem o saber agora

começo a aprender
que ser criança aqui
é espuma
que o mar deixa na areia
e secará com o sol e o sal

é este o meu infantário …

 

(torreira)

59


o mar a meus pés

chamaram-me antónio josé e….

 

aqui estou

59 anos depois

com os olhos dependurados sobre o mar

(eterno poiso de sonho e amor)

 

aqui estou

59 anos depois

tantas caminhos mais tarde

o coração dividido entre as três terras-mães que me aconchegam

(setúbal memória de lá ter nascido

murtosa memória dos que antes de mim fizeram que eu seja

figueira o aconchego da cidade-aldeia onde as memórias se juntam)

 

aqui estou

59 anos depois

eu

pai-avô

de filhos e netas também repartidos por terras

perto e longe

(espalhados na geografia mas juntos onde só um pai os pode ter sempre)

 

aqui estou

59 anos depois

com um sorriso nos lábios

aqui onde

os amigos me saúdam

e me fazem sentir menos só

 

aqui estou

59 anos depois

povoado de memórias e cheio de mim

que em mim tudo é

 

(por tudo isto estou de parabéns, hoje, aqui)

 

 

saco cheio


saco cheio

é uma alegria quando depois de algumas horas o saco chega cheio à praia.

em seguida é preciso, com um estacadão atravessado sob a boca do saco ir empurrando o peixe que aí ficou emalhado para o fundo.

em seguida é cortado o fio que fecha o saco e retirado o peixe.

 

(praia de mira_companha do fatoco)

sorriso


era uma vez

como se bebesse

o momento

o efémero

eternamente retido

numa chávena

onde o douro corre

ao encontro do mar

sorrindo como ela

por enfim se encontrar

 

a felicidade

carece de tão pouco

porque lhe pedem tanto?

 

(foto de sofia carvalho : http://www.facebook.com/scarvalho2