os moliceiros têm vela (136)


a vida não é uma parábola

tempo de pensar

tempo de pensar

depois de o executarem
disseram que não era culpado

incapaz de se levantar
o executado sorriu
um sorriso de cinzas

ainda hoje quando o vento
sopra do norte
vejo-as voar e cobrir de pó
tudo quanto a sul

afinal estava tudo na bíblia
como é costume
que tudo lá cabe excepto

a vida
que não é uma parábola

tudo é efémero

tudo é efémero

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (91)


calaste-me pedras

fica a sombra

fica a sombra

não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro

quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo

as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam

as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória

calaste-me pedras

é urgente dourar os dias que restam

é urgente dourar os dias que restam

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (135)


para o meu amigo dr. peres

o silêncio cobre tudo, espera-se

o silêncio cobre tudo, espera-se

não sei onde está agora
aquilo que do teu corpo
em cinzas tornado foi

recordo as tuas palavras
“então e o meu amigo como vai?”
e eu ia com a tua ajuda

a música a poesia a pintura
um mundo onde habitar
era ter um amigo dentro

cuidavas mais dos outros
que de ti
talvez por isso te descuidaste
e já não és

escrevo só para te dizer
obrigado
obrigado por teres sido

um quadro para a parede do dr. peres

um quadro para a parede do dr. peres

(torreira; regata do s. paio; 2010)

lembro-me agora, meu amigo, que nunca chegámos a comer, juntos, uma caldeirada de enguias

eu sou tudo o que aqui encontras


e …. o livro está aí
a publicidade com a capa dentro

a publicidade com a capa dentro

“sou tudo o que aqui encontras”

as encomendas, com identificação de morada para remessa, devem ser feitas para o meu endereço de email ahcravo98@yahoo.com

atendendo ao facto de a impressão ser feita em frança, em pacotes de 40 unidades, e eu ser autor, distribuidor e vendedor, sem qualquer margem de lucro, a demora entre a encomenda/pagamento e envio poderá ser maior que o habitual. mas só assim se conseguem os custos mínimos.
uma antevisão do livro pode ser visionada em
em breve divulgarei a data de lançamento que, espero, será na primeira semana de setembro, na torreira

postais da ria (90)


“primeiro de agosto
primeiro de inverno”

(ditado da torreira)

chove

chove em agosto, na torreira

chove em agosto
limpam-se as cores
tudo adquire por momentos
uma beleza lavada
onde os olhos se renovam

chove em agosto
e eu esqueço-me
dos insignificantes

estou vivo e isso me basta

só não encontra beleza quem não a procura

só não encontra a beleza quem não a sabe ver

(torreira; marginal da ria;  13/08/2015)

crónicas da xávega (84)


nunca

o peso do saco

o peso do saco

duas faces têm os dias

nunca saberás o peso
do fardo de ser
até te pesar nos ombros
o amargor das palavras
onde amor devia

duas faces têm os dias

verga-se não o corpo
mas o que dentro dele
mais frágil e sensível
é no mar que afogas
a raiva de seres assim

dares a outra face
nunca

pesado fardo, duro caminho

pesado fardo, duro caminho

(torreira; companha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (133)


recuso este futuro

o "cristina e sara", do ti virgílio, espera pela maré para chegar ao cais. 

o “cristina e sara”, do ti virgílio, espera pela maré para chegar ao cais. 

não digo nada
nem bem nada mal
mostro o que vejo

digam-me que não devia
que não é este o postal

não digo nada
nem bem nem mal
mostro o que vejo

tem a força de ser real

lê tu o que eu vi
o que sentes?

eu vejo o futuro
que recuso aceitar

não comento o estado dos portos de abrigo da murtosa, nem os milhões ali gastos com fundos comunitários e nossos. mostro o que vejo

não comento o estado dos portos de abrigo da murtosa, nem os milhões ali gastos com fundos comunitários e nossos. mostro o que vejo

(murtosa; cais do bico; 2 de agosto de 2015)