postais da ria (105)


o meu amigo ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

nos últimos anos
caminhava pesado até à bateira
a cana de pesca bengala
remava atá ao meio da ria
voltava com algum peixe para o almoço

os dias repetiam-se e ele dentro deles
dentro do silêncio dentro da bateira
na ria

primeiro arrumou a bateira
cobriu-a com plástico
depois morreu a mulher
o plástico começou a rasgar-se
e ele

falei-lhe quando já não era
mostrou-me a casa os troféus
contou-se por momentos
viveu

não sei como estará numa casa
entre quatro paredes auxiliares
refeições certas medicação a horas
um sofá a cama o silêncio os outros

onde a ria?
eu vejo-o sempre lá no meio
a dar vida às águas mortas

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

(torreira; 2015)

os moliceiros têm vela (150)


porque hoje morreu o joão josé santos cardoso

ahcravo_DSC_5948 bw
há amigos que não vemos
há muito
há amigos que vemos
todos os dias

há amigos que não veremos mais
mas que nunca deixam de ser amigos

abraço joão josé

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o moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço

(torreira; regata do s. paio; 2014)

crónicas da xávega (99)


nota dos dias que correm

o agostinho desata o arinque do calão

o agostinho desata o arinque do calão

ontem morreram quatro pescadores num arrastão à entrada da barra da figueira. problemas de concepção da barra.

ontem um locutor de televisão tentou assassinar o bom nome de um cidadão. problemas de concepção do mundo.

hoje não sei que país é este onde tudo isto pode acontecer e ficar impune.

a realidade tem muitas cores e todas são belas

a realidade tem muitas cores e todas são belas

(torreira; companha do marco; 2014)