
mãos (3)



dos camelos

o mendigo basilius, criação do actor joaquim vieira basílio – arzila, 2015
no palco do mundo
artistas muitos há
poucos porém da arte
senhores são
pensam que não vejo
não sinto não sei
mas
também eu sou actor
fraco mas sou
tinha a palavra camelo
atravessada na garganta
como se espinha
saiu-me com a ajuda
do basilius
um verdadeiro actor
que já partiu
descansa em paz basilius
os camelos também
(arzila; 2015; feira medieval)
(da memória)
bom dia dr. joaquim

joaquim namorado retratado por jaime do couto ferreira
cheguei a coimbra em setembro de 1973 e, não me lembro já porquê, fiz do tropical o meu café. ali se juntava a tertúlia de que joaquim namorado e orlando de carvalho – este por vezes de forma ensurdecedora – eram as figuras centrais.
jovem estudante, amante da leitura, ali passava as manhãs ou tardes livres a ler e, à tarde, a ouvi-los.
é no entanto depois do 25 de abril que começam as minhas conversas, fora da tertúlia, com joaquim namorado. conversas matinais entre um esquerdelho e um comunista ortodoxo.
até ao final da vida do poeta mantive com ele conversas animadas em que muito aprendi, lembro-me de lhe mostrar uns originais para colher a sua opinião, de caneta na mão lá foi riscando, cortando ….. (perdi essas folhas, como tenho perdido muita coisa na vida)
fomos amigos e isso é o mais importante. com a morte de joaquim namorado, para mim, morreu a praça da república e já pouco fui ao tropical.
setembro de 2018
no âmbito da exposição de jaime do couto ferreira e na sequência da edição do seu livro “O Herói no “Neo-realismo mágico” a editora lápis de memórias promoveu na casa da escrita, em coimbra, duas sessões sobre o poeta joaquim namorado.
neste registo reproduz-se a totalidade da sessão de 22 de setembro de 2018, em que antónio pedro pita fez uma “releitura” da obra do poeta e uma “visita guiada” à sua vida.
rui damasceno e josé antónio franco disseram poesia

talvez
como eu gosto desta palavra
talvez
porque não tenho certezas
ai de quem as tem
talvez
outro corpo noutro lugar
talvez
talvez
tudo pudesse ser diverso
talvez
talvez a música
talvez
(coimbra; 2014)

joaquim namorado visto por jaime do couto ferreira
no âmbito da exposição de jaime do couto ferreira e na sequência da edição do seu livro “O Herói no “Neo-realismo mágico” a editor lápis de memórias promoveu na casa da escrita, em coimbra, duas sessões sobre o poeta joaquim namorado.
neste registo, com a introdução de breves momentos da tertúlia do atrium sólum, a totalidade da sessão de 21 de setembro de 2018

falam as mãos?
sabes ouvi-las?
as tuas mãos
como as usas?
dás a mão a quem?
quem te deu a mão?
dançam as mãos?
quantos dedos te arrancaram
quando deste a mão?
as mãos são
não sei se tu és
(coimbra; 2013)
a vida é um jogo de mãos
o meu amigo jaime

o que a vida separa
há datas que unem
hoje estivemos em festa
jaime
a festa de abril
a festa da liberdade
a festa do encontro
hoje estivemos em festa
jaime
vimos crianças muitas
jovens tantos
nós menos que no ano
passado
a lei da vida disseste
mas hoje
hoje estivemos em festa
jaime
(prof. jaime do couto ferreira; coimbra; 25 abril 2018)

quando el-rei apareceu
temerosa d. isabel
recolheu o manto
que levais aí senhora
perguntou el-rei
são cravos meu senhor
mostrai-me quero vê-los
sabeis como sou curioso
aberto o manto
cobriu-se o chão
de cravos vermelhos
mas senhora
hoje não é 25 de abril
será amanhã
meu senhor
será amanhã
é amanhã

(coimbra; 25/04/2017)
a cidade onde
restam da cidade
rostos difusos
nomes percursos
as ruas por onde
sons cores aromas
vozes gestos nós
na quotidiana
construção da memória
existimos para ser
o termos sido
habita
o que seremos

(coimbra; 2013)