os velhos atravessam o tempo de memória com mão ágil lágrima grossa regressam os velhos caminham caranguejos lentos medusas de horas e anos os velhos ajoelham calos e varizes nas pedras gastas do passado os velhos contam histórias antigas sabedoria de séculos os velhos afagam as crianças macias as mãos grossas magras ossudas os velhos arrastam-se e caem cansadas as pernas fechados os olhos os velhos às vezes já estão mortos outras morrem ainda mais velhos os velhos vivem e recordam e não vivem e recordam ainda os velhos já foram por isso são
retratos
acordam o sol

acordam o sol põem a mesa o pão o café o mais se houver levantam-se carregam a enxada limpa da terra de ontem palmilham caminhos sacham cavam regam dobradas as costas ao peso do sol e da idade deitam-se com o sol que com ele se ergueram irmãs de ser hoje mais um dia
(louriçais; eira pedrinha; 2005)
bem hajas, meu filho
a minha gente

a minha gente
trabalha duro
como duro é o pão
que muitas vezes come
falas do tempo
quando o pescador se descobre
alberto estrela (aos amigos que partiram)
(alberto estrela; torreira; 2006)
boa noite estrela soube pelo teu filho você deve conhecer o meu pai o estrela a frase continua a martelar-me a cabeça que tinhas partido ninguém sabe para onde mas todos sabem que não voltas sabes estrela a vida é feita de encontros e desencontros nós há muito que não nos encontrávamos vinha e não te via e pensava está para o mar era normal e vai continuar a ser normal porque para mim estrela tu estás no mar e é por isso que não nos encontramos um abraço do teu amigo cravo
o nosso vizinho

nunca lhe soube o nome era o nosso vizinho sempre em torno das suas duas paixões e preocupações o carro e a esposa era vê-lo nas tarde soalheiras de inverno capô aberto a dar de respirar ao motor a sacudir os tapetes a pôr o motor a trabalhar e a andar dez escassos metros com o carro era vê-los sentados ao sol manso de inverno abrigados do vento frio pelas paredes de vidro e chapa do carro ele a ler o jornal ela a fazer renda nunca lhe soube o nome conheci-lhe porém um pouco da vida mais importante que o nome nas conversas parcas das horas mortas do intervalo de almoço gostava de os ver a descer a calçada a caminho da bica depois de almoço ou do jantar se o tempo ajudava nunca lhe soube o nome mas nunca lhe esquecerei o rosto a educação que já não se usa o dobrar ligeiro sem ser servil da coluna enquanto levava a mão à cabeça para solevar o boné o cumprimento sempre pronto coisas de aldeia perdida na cidade nunca lhe soube o nome e agora mesmo que o viesse a saber já não poderia chamar por ele será sempre o nosso vizinho
nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos




