mulheres da torreira


carmo e fátima (chinchão)

também as mulheres safam as redes e não precisam de homem ao pé.

a carmo e a fátima (chinchão) safam as redes para a passadeira da marina.

depois virá o homem e arrumará as redes para as largar.

numa terra onde muitas das mulheres têm de carta de marinheiro, até os pescadores podem descansar.

há quem lhes chame “pescadeiras”, eu gosto mais de pescadoras.

mulheres há beira ria nadas, mulheres de mar, MULHERES

(torreira – marina dos pescadores)

o lento caminhar dos dedos


o safar do salvador

 

sabes tu
que pensas tudo saber
o que sabem as mãos
e o que sabem fazer?

lentas, hábeis
acariciam as redes
safam-nas de algas
limpam-nas de limo
sem pressas de urbano

sabes tu
que tudo sabes
que tudo tem o seu tempo
e todo o tempo cabe
em duas mãos de trabalho
em duas mãos que cantam
odes à ria
erguendo no tempo
um templo
onde orar é outra forma
de pescar?

sabias tu?

as redes da solheira


 

 

salvador belo

 

admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes

com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água

meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores

(torreira – salvador belo)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

carlos padeiro – a ria por paixão


carlos padeiro

desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.

aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.

há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.

aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.

a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.

na torreira nasce-se pescador.

(murtosa – torreira – marina dos pescadores)

zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)

regata moliceiros – bico – 8 de agosto – 15 horas


eu vou

http://www.cm-murtosa.pt//Templates/GenericDetails.aspx?id_object=4863&divName=876&id_class=876

no dia 8 de agosto pelas 15horas
no bico, na murtosa
vão desfilar em regata
no sentido nascente/poente e regresso
de manhã costuma haver umas tasquinhas com petiscos
uma tele 70/300 ou 200 e uma 18/55 fazem jeito

estou lá logo pela manhã

ria de aveiro: passado e futuro


 


o cisne e o pato

 

o moliceiro resiste ao passar do tempo, pela beleza, pela paixão daqueles que em tempo o utilizaram como ferramenta de trabalho.
resiste nas regatas, inteiro, amputado da vela nas viagens promovidas pelo turismo.
resiste, até quando?
entretanto a utilização da ria como pista de vela, de kyte surf, de surf, de vela; a ria adquire nova face.
neste momento breve, o que vai deixar de ser o cisne da ria, beleza primordial e eterna, cruza-se com um pato que prenuncia o futuro.
até quando cisne?
(murtosa – torreira – canal de ovar – em frente à bestida)
o sexo fraco?

o sexo fraco?


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.

o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.

nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.

a apanha depende de três condicionantes:

1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda

cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)