crónicas da xávega (596)


escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente

escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida

escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede

(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)

crónicas da xávega (590)


em louvor dos críticos

contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte

cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião

cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia

aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor

foi o fim dos conselhos

se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema

eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso

ah aposentado que ainda estavas
ao serviço

(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)

crónicas da xávega (589) – bota! 2025


mais um ou menos um

esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação

sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas

a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra

são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam

faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais

por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir

não esqueças
a desumanidade não pára

(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)

crónicas da xávega (588)


recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música

recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo

recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores

recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco

(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)