um homem só?


 

popola

 

um barco
o silêncio da praia
deitado na areia
escuta o suave
navegar das nuvens

um homem só
espera
não se sabe se amanhã
hoje
será o dia
o ultimo
o primeiro

um homem só
abandonado no seu país
pelos que nele mandam
e mandaram
dizendo representá-lo
e mandam
ainda mais

não é
um homem só
ou será?

todos somos
o homem só
ou negar-nos-emos
como povo

(torreira, 2008; à memória do arrais zé murta)

pescadores da torreira (cabrita alta)


 

joão manuel brandão

 

quantos anos tem um corpo?

 

ao pesado fardo

do ganha pão

os corpos curvam-se quebram-se

rápido se desgastam

 

retesados músculos

em esgar de dor

os rostos

são facas que cortam

quem os vê

 

cedo amanhecem os dias

e a ser os anos

ninguém os canta

poucos os contam

vivem no silêncio

aí permanecendo até que

 

alguns os exploram e exportam

o suor e o sangue

o corpo

feito mercadoria

lucrativa

vendida a estranhas gentes

 

são os pescadores

da torreira

o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre

as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

até quando?


(praia de mira; 2009)

que dizer-vos
destes tempos em que assisto
a tentativas sucessivas
de assassinato
da memória?

que dizer-vos
da raiva angústia
desespero
destas gentes
que são as as minhas
que são as nossas
que somos nós?

quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o hoje
o ontem?
 
quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o sermos?
 
o povo será sereno
mas até a serenidade
tem limites

até quando?