o nó
por vezes, durante o alar das redes as cordas formam nós – estranhas mãos que mar no moram.
é preciso que o nó seja desfeito antes de chegar ao alador, que poderá encravar e fazer parar toda a alagem.
os movimentos são rápidos, seguros, fortes, sentidos.
de um simples nó, pode resultar a perda de um lance.
o novíssimo testamento
ontem, dia 9 de outubro, foi entregue na biblioteca municipal de cantanhede, o 1º prémio, da 2ª edição do concurso carlos de oliveira, ao romance ” o novíssimo testamento”. o autor, mário lúcio sousa, escritor, músico (fundador do grupo simentera, de que é líder, vocalista e multi-instrumentista) é também embaixador cultural de cabo verde.do romance, que se aconselha vivamente, retiro, do primeiro capítulo, somente o início do diálogo:“_ É chegada a minha hora,
_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,
_Não chamam nada, na minha morte mando eu,
_Não quero médico, chamem-me um fotógrafo,
_Estás doida, Vó?
_Estou a morrer, não estou?, então cumpra-se ,a minha vontade, quero um fotógrafo, pois o médico adia a morte e o fotógrafo perpetua a vida,……….
“
o fotógrafo estava lá, por isso, mário, aqui fica o meu modesto contributo para a perpetuação da tua vida
mantenha
ode ao sonho
manuel castelhano. presente!
ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista
a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“
assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão
vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local
( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.
falo da torreira)
dos moliceiros
estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida
aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento
a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá
estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar
(torreira- monte branco)
o caos
os velhos (II)
pouco a pouco
recuperam do passado os rostos
a memória
também ela se vai gastando no refazer de caminhos
os nomes
esvaem-se no tempo
como é que se chamava o nosso sargento ?
do que ontem ardia
hoje apenas algumas cinzas
o vento dos dias
pelo tempo a memória espalhou
são três
e à mesa do café jogam
cartas velhas de sebo
batotas antigas de casernas rancho marchas
lembras-te ?
são três e recordam
e assim se unem os velhos
xávega – o saco e a zorra
depois de se ter tirado todo o peixe do saco, de o limpar bem e sacudir é preciso carregá-lo na zorra ( espécie de trenó para areia), para o levar para seco, estendê-lo na areia e deixá-lo a secar.
depois de seco estará pronto a ser de novo carregado no barco (aparelhar) e a iniciar nova faina.
o transporte é sempre feito por recurso à zorra.
assim é na torreira, na praia de mira o esforço é feito por um tractor com um braço grande e colocado o saco num atrelado.
de praia para praia as técnica mudam. as designações também. falamos de designações, práticas e experiências que variam de praia para a praia, embora a arte de pesca seja a mesma e em pouco mudem os procedimentos
os velhos (I)
os velhos atravessam o tempo de memória com mão ágil lágrima grossa regressam os velhos caminham caranguejos lentos medusas de horas e anos os velhos ajoelham calos e varizes nas pedras gastas do passado os velhos contam histórias antigas sabedoria de séculos os velhos afagam as crianças macias as mãos grossas magras ossudas os velhos arrastam-se e caem cansadas as pernas fechados os olhos os velhos às vezes já estão mortos outras morrem ainda mais velhos os velhos vivem e recordam e não vivem e recordam ainda os velhos já foram por isso são








