postais da ria (501)


não sei
de metáforas
nem da arte dos poetas
de entretecer versos

sei
da crueza da carne
das mãos da ternura
dos dedos que desenham
corpos
que se entregam
se penetram fundem possuem

sei
da loucura das bocas
das palavras silenciadas
prisioneiras de lábios cerrados
de línguas sorvidas
na voracidade dos desejos
desenfreados

sei
do renascer matinal
dos espasmos dos abraços
dos corpos cansados lassos

sei
que todo o início encerra
um fim

sei
que sei de mim

(murtosa; cais do chegado)

postais da ria (498)


a prenda

meticulosamente
começou a despi-la

os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de

uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima

até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces

admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos

tinha conseguido

depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal

(mais uma maré a cabritar; torreira; 2015)