a realidade é
cada dia mais surreal
ou será o inverso
(regata de bateiras do s.paio; preparação; torreira; 2012
não sei
de metáforas
nem da arte dos poetas
de entretecer versos
sei
da crueza da carne
das mãos da ternura
dos dedos que desenham
corpos
que se entregam
se penetram fundem possuem
sei
da loucura das bocas
das palavras silenciadas
prisioneiras de lábios cerrados
de línguas sorvidas
na voracidade dos desejos
desenfreados
sei
do renascer matinal
dos espasmos dos abraços
dos corpos cansados lassos
sei
que todo o início encerra
um fim
sei
que sei de mim
(murtosa; cais do chegado)
a prenda
meticulosamente
começou a despi-la
os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de
uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima
até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces
admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos
tinha conseguido
depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal
(mais uma maré a cabritar; torreira; 2015)