postais da ria (209)


o real no virtual

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amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal

que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida

a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais

num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras

(torreira; 2016)

postais da ria (202)


carta

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quando o barco é o camarada

sabes a quanto vendem os pescadores

o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?

sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?

quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?

procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço

se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos

e
nos enches de espanto

(torreira; 2016)

postais da ria (192)


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henrique pai e henrique filho, brandões (gamelas)

o tempo tudo julga
e a seu tempo
dirá de sua justiça

o tempo julga
à velocidade
da justiça portuguesa

em sede de recurso
se acaso houvesse
seria de mortos a demanda

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os henriques brandão, pai e filho

 

(torreira; cirandar)

 

postais da ria (182)


da amargura

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o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

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o colorido dos dias é agora outro

(torreira; julho; 2016)

postais da ria (171)


hoje sou âncora

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o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

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uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (170)


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o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

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o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)

 

 

postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

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o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

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pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?