como o vento
as palavras
brisa e furacão
poeta
(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2011)
eu queria escrever
poemas de amor
escrever com arte
o teu corpo o meu
os nossos
escrever coisas belas
que nada dissessem
para além da beleza
que há nelas
eu queria escrever
poemas de amor
poetar
a natureza o céu
as flores o mar
e os teus olhos
num poema
pensar o mundo
sem o mundo dizer
eu queria ser poeta
mas sou apenas um ser
que olha vê sente
e não cala a raiva a lágrima
que ensopam
estes dias-palavras tristes
(solheira; safar redes; torreira; 2014)
que metáfora para o sniper que alveja uma criança indefesa uma mulher que leva o filho pela mão um homem que caminha que metáfora para o tiro certeiro no peito na cabeça para o assassínio preciso sorridente impune de safari que figura de estilo para a terraplanagem o apagar da memória o que tanto foi que metáfora para o genocídio impune realimentado em dólares e silêncio acomodado que figura de estilo falta ainda inventar porque tudo surpreende quando pensávamos já ter visto tudo que metáfora para esta merda de tempo em que vivemos
(bateiras; torreira; 2013)