trump guess
so what are you
male or female
sorry sir
just an email
(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)
que metáfora para o sniper que alveja uma criança indefesa uma mulher que leva o filho pela mão um homem que caminha que metáfora para o tiro certeiro no peito na cabeça para o assassínio preciso sorridente impune de safari que figura de estilo para a terraplanagem o apagar da memória o que tanto foi que metáfora para o genocídio impune realimentado em dólares e silêncio acomodado que figura de estilo falta ainda inventar porque tudo surpreende quando pensávamos já ter visto tudo que metáfora para esta merda de tempo em que vivemos
(bateiras; torreira; 2013)
mais um ou menos um
esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação
sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas
a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra
são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam
faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais
por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir
não esqueças
a desumanidade não pára
(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)
não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho
em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o
carteirista era a sua alcunha
ti abílio
nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça
um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio
a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir
(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)
poemas de amor
gostava de os escrever
e de os entregar
aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças
escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência
merda álvaro
também eu sou lúcido
não não sou daqui
recuso-me a ser
poemas de amor
não sei escrever
(porto de abrigo; torreira; 2009)
recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música
recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo
recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores
recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco
(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)