postais da ria (545)


que metáfora
para o sniper que alveja
uma criança indefesa
uma mulher que leva o filho pela mão
um homem que caminha

que metáfora
para o tiro certeiro
no peito na cabeça
para o assassínio preciso
sorridente impune de safari

que figura de estilo
para a terraplanagem 
o apagar da memória
o que tanto foi

que metáfora
para o genocídio impune
realimentado em dólares
e silêncio acomodado

que figura de estilo
falta ainda inventar 
porque tudo surpreende
quando pensávamos
já ter visto tudo

que metáfora
para esta merda de tempo
em que vivemos

(bateiras; torreira; 2013)

crónicas da xávega (589) – bota! 2025


mais um ou menos um

esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação

sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas

a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra

são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam

faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais

por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir

não esqueças
a desumanidade não pára

(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)

os moliceiros têm vela (560)


não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho

em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o

carteirista era a sua alcunha
ti abílio

nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça

um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio

a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir

(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)

postais da ria (543)


poemas de amor 
gostava de os escrever
e de os entregar

aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças

escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência

merda álvaro
também eu sou lúcido

não não sou daqui
recuso-me a ser

poemas de amor
não sei escrever

(porto de abrigo; torreira; 2009)

crónicas da xávega (588)


recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música

recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo

recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores

recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco

(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)