eu reformado


ser ainda
ser ainda
eu reformado me confesso
por ainda estar vivo
quando deveria ter morrido
no exacto instante em que deixei de trabalhar

eu reformado me confesso
por receber mensalmente uma pensão
(já ratada à má fila)
para a qual descontei todos os meses dos muitos anos que trabalhei
entregando parte do meu ganho
aos que em mim confiaram e eu neles confiei

eu reformado me confesso
por ter sempre vivido do salário ganho em cada dia
gastando o que tinha e não mais do que podia
se economias tenho e delas me sirvo
pelas poupanças peço perdão
pois se não fossem elas difícil seria continuar vivo
 
eu reformado me confesso
por todos os dias sentir que já não estou tão saudável
e que a doença não me faz mal a mim
mas à sustentabilidade do sistema de saúde
que alguns só concebem para pessoas sãs que não causam 
despesa
o que me põe ainda mais doente

eu reformado me confesso
por ter tido filhos
os ter criado, educado, formado, preparado
para produzirem riqueza neste que é o seu país
e continuar hoje a ajudá-los na criação dos meus netos
que empregos não há para o esforço que fiz
 
eu reformado me confesso
p r o f u n d a m e n t e r e v o l t a d o
por me roubarem sem nunca ter roubado
desse crime me confesso e peço perdão
nunca roubei, isso não

o dia


todos os hoje
são uma semana que começa
os dias são dias e nada mais
o tempo passa simplesmente
sem necessidades de calendário

por debaixo das pedras
na sombra fria
um raio de sol procura os vermes
sentados em cadeiras almofadadas
de onde lançam compridas línguas
para lamber a luz

amanhã
porque vai sempre haver um amanhã
lembrar-nos-emos de terem sido
tempo demais
culpa nossa a de gritarmos apenas
debaixo de outras pedras

haverá um hoje
em que a sua semana não se iniciará
por ser só nossa

nesse dia
o sol quebrará as pedras
o ventre dos vermes inchará e rebentará

por esse dia
lutaremos

(condeixa; eira pedrinha)

quase nada


praia de buarcos

praia de buarcos

quem sou eu
que não sei quem sou
dos tantos que em mim?
o quase em tudo
mário
(pretensiosismo esse do tudo)

o quase nada
eu
isso sim sei

as palavras quase
o estar com quase
o quase quase sempre
o que não vejo
o que não digo
onde não estou
onde estou e não

o quase tão simples de ser
o quase nada
eu

canso-me de correr e
a nada chego pleno de mim
o vazio entre tudo e
eu
o intervalo
apenas isso
as reticências para além de
o incompleto completamente

nem aquém fiquei
mário
nem aquém
não sei onde
não por aí
que cheio está esse lugar
por aqui?
mas
que aqui?

não tenho braços mário
para tanta geografia
onde todos os que
eu
abarcar quero

qual quase mário
qual quase
quase nada
eu
isso sim

 

o Interesse Nacional


 

 

logo pela manhã

depois de ter respirado o ar puro

do jardim fronteiro à vivenda onde morava

na quinta da marinha

o Interesse Nacional

chamou o motorista

 

sem pressas recostou-se no banco

traseiro

acendeu o primeiro charuto do dia

contemplou o tejo

pressentiu o mundo

 

chegado ao gabinete de onde comandava

os seus investimentos em países diversos

chamou a secretária pediu

o café

a agenda do dia

a correspondência

a síntese dos mercados e da informação

 

contactou os seus servos

soube de perdas e ganhos

aceitou sugestões

ponderou decidiu

como ganhar muito

sentado na cadeira de pele modelo executivo

 

os juros

a dívida

o défice

não lhe facilitavam o negócio

esperava porém que as políticas anunciadas

pelos seus amigos

lhe permitissem multiplicar os ganhos

 

que diabo

afinal

ele era

o Interesse Nacional

 

– veio-me à memória uma canção

de tempos idos e que

a dado passo rezava assim:

. levados, levados sim …

 

até quando?