postais da ria (560)


os bárbaros vestem-se de automóveis oficiais 
seguranças aviões têm casa em paraísos fiscais

os bárbaros assassinam friamente
em nome do deus do dinheiro
sacrificam o futuro à ganância efémera

os bárbaros caminham sobre corpos
esfacelados de crianças mortas
de fome de tiro certeiro de estilhaços

os bárbaros apertam mãos abraçam
recolhem apoios de gente aparentemente limpa
com valores escondidos nos bolsos

os bárbaros mandam comandam fazem
comem em mesa farta e nada vêem para além
do prato cheio regado a sangue inocente

os bárbaros são presidentes eleitos governam
ditam leis aprovam decretos e orçamentos de guerra
fracos os cúmplices calam consentem e sorriem

os bárbaros roubam com um sorriso cândido
iludem-se patrões de um mundo sociedade anónima

os bárbaros morrerão e o seu legado será
destruição e morte negação de humanos terem sido

(corrida de chinchorras a remos; s. paio; torreira; 2018)

postais da ria (555)


em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce

português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras

abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós

não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas

descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi

curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente

(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)

postais da ria (552)


uma bomba caiu
dentro do poema

palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue

é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também

uma bomba caiu
dentro do poema

há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas

é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também

(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)