solares os dias
contam estórias
só a lua
conta sonhos
(quando a lua nasce na serra; porto de abrigo; torreira; 2010)
os bárbaros vestem-se de automóveis oficiais
seguranças aviões têm casa em paraísos fiscais
os bárbaros assassinam friamente
em nome do deus do dinheiro
sacrificam o futuro à ganância efémera
os bárbaros caminham sobre corpos
esfacelados de crianças mortas
de fome de tiro certeiro de estilhaços
os bárbaros apertam mãos abraçam
recolhem apoios de gente aparentemente limpa
com valores escondidos nos bolsos
os bárbaros mandam comandam fazem
comem em mesa farta e nada vêem para além
do prato cheio regado a sangue inocente
os bárbaros são presidentes eleitos governam
ditam leis aprovam decretos e orçamentos de guerra
fracos os cúmplices calam consentem e sorriem
os bárbaros roubam com um sorriso cândido
iludem-se patrões de um mundo sociedade anónima
os bárbaros morrerão e o seu legado será
destruição e morte negação de humanos terem sido
(corrida de chinchorras a remos; s. paio; torreira; 2018)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)