se sofre de alergias
a más companhias
tome vacina gorim
vote seguro até ao fim
(disponível em embalagem unidose, oferta de um cravo de abril)
nota: grafismo de Patrícia Miguel Dias
sábado às 17 horas no CIAX, na praia da tocha, irei apresentar “FAINA” , um livro cheio de mar e … tão bem escrito
venham e vamos conversar sobre literatura e arte-xávega
escreve Marta Pais Oliveira
Faina tem despertado leituras extremadas e isso agrada-me. O destaque da @gradivapublicacoes – que arrisca em novas vozes e formas de narrar e a quem agradeço muito essa crença – traz leituras positivas do livro e a nomeação como finalista do Prémio Literário Fundação Eça de Queirós.
Poderia fazer outro destaque com críticas de quem visceralmente não gostou do livro. Tenho reparado que é um texto que pode atrair ou repelir com intensidade.
Escrever é um labor de momentâneas fúrias e deleites e, na maior parte do tempo, continuada paciência. Encaro a leitura como um labor que constrói a outra metade do livro, encaro o leitor como um criador. Trata-se de um laço entre duas forças contra a incomunicabilidade.
Quando perguntam: escreves para quem? Em tempos trabalhei em publicidade com públicos-alvo. Nos livros – e por isso respiro – é o oposto. Escrevo para quem me quiser ler. Não escrevo para dificultar a vida do leitor, a construção frásica que me é natural é a que uso e não abdico do trabalho da linguagem. O que tento é criar textos com múltiplas camadas, como quem tira a roupa para chegar à pele para tirar a pele para rasgar a carne para chegar ao osso e aí entender que algo continua a escapar. Quero o que é fugidio e tremelicante. Ao leitor peço atenção e imaginação.
Escrevo como penso, e penso com contradições e hesitações. Talvez escreva para hesitar melhor. Sei que fujo da indiferença, faço exercícios arriscados nos textos e quero tentar dar forma a livros ambiciosos. Atraem-me lugares de estranheza e o contraste entre a maior precisão e a perda de nitidez, como quando abrimos os olhos debaixo de água, se o suportarmos. Procuro espaços para me desorientar melhor, fazer perguntas, peneirar as palavras para captar-lhes o que não é da ordem do verbal, um ritmo primeiro.
A praia que inspirou este livro é uma praia de excessos: de paixão, amor e de medo, revolta. Essa intensidade moldou o romance.
Tem sido uma travessia com muito afeto, é poderoso o amor pelos livros e a transformação que abrem. Este sábado há conversa sobre Faina na Praia da Tocha, Centro de Interpretação da Arte Xávega, 17h, com o leitor António José Cravo. apareçam para abraços-mergulhos!
(o beijo através do Atlântico, alegoria publicada na Revista da Semana do Brasil e na Ilustração Portuguesa celebrando a travessia Lisboa-Rio in Portugal século XX, Joaquim Vieira, Círculo de Leitores)
não haverá muito tempo um migrante indiano mostrava na televisão a sua filha a falar correctamente português, enquanto ele falava fundamentalmente inglês, fazia-o com o orgulho do pai que em portugal tinha encontrado uma nova vida e cuja filha estava perfeitamente integrada na escola, na língua, nesta terra que tinha escolhido.
a maior comunidade migrante em portugal é a brasileira, que tem sobre todas as outras a vantagem de falar português, embora seja o português do brasil, e por isso maior facilidade de integração. numa reunião literária a que assisti há pouco tempo, a palestrante, jornalista/escritora manifestou a sua preocupação com o facto de os filhos de migrantes brasileiros ao frequentarem a escola portuguesa, chegarem a casa e confrontarem os pais com esta “nova” forma falar português (sem gerúndios), o que poderia chocá-los.
ora bem, quer gostemos quer não, quer seja actualmente correcto ou incorrecto, é um facto, sempre, mesmo antes do regime de salazar, se falou das descobertas feitas pelos navegadores portugueses. agora considera-se que o termo correcto será “achamento”, porque não foram descobertas novas terras, porque já existiam. quem defende esta nova designação não são as populações indígenas – caso do brasil – mas os descendentes daqueles que foram “descobrir” novas oportunidades de vida nas terras “achadas”, ou seja, descendentes de descobridores reivindicam que em vez de “descoberta” se diga “achamento”. interessante não é?
mais, tendo escolhido portugal para fazer uma nova vida acham-se, alguns, no direito de exigir que nas nossas escolas/universidades aos seus filhos e aos que tendo vindo para cá concluir os seus estudos, seja ensinado o português do brasil. e assim de filhos de descobridores de terras por portugueses, segundo eles, achadas, querem-se conquistadores da terra dos achadores.
e nós, herdeiros da mentalidade salazarenta, subservientes e adoradores do que não é nosso mas do que de fora vem, preocupados estamos com tal situação.
eu que à minha maneira lutei contra o regime de salazar, que defendo as conquistas de abril, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, e que defendo os migrantes e a sua integração na sociedade portuguesa, com direitos e deveres, em respeito mútuo; eu que me defino como homem de esquerda penso, às vezes por distracção, que este tema tem de ser clarificado pela esquerda portuguesa e não deixado em aberto, o que implica entregá-lo aos populismos de extrema direita.
politicamente incorrecto, do ponto de vista da esquerda, é “deixar andar” esta forma coxa de viver.
porque não partiste
lembro um sonho lindo
uma viagem por um rio acima
a guerra e a rosalinda
a chula
o canto livre
a música a sociologia
a poesia
lembrarei sempre
um barco que vai de saída
uma cana verde a bailar
os trapeiros
o barco vai e vem
a viagem não pára nunca
tu és o capitão fausto
todo o porto é partida
volta breve quem nunca partiu
(figueira da foz; 01/07/2024)
no dia 2 de abril estive no Hospital de Sobral Cid, em Coimbra, a falar sobre livros.
não há palavras para descrever a conversa que tive com os presentes e o trabalho de Luís de Pessoa na elaboração do vídeo que vão ver.
obrigado a toda a comunidade do Sobral Cid pela oportunidade de partilhar pedaços da minha vida

um cravo para ti

mais do que a palavra
somos o gesto
mais do que o pensar
somos o fazer
mais do que únicos
somos solidários
não somos diferentes
somos assim
temos a liberdade de o ser
por isso lutámos
temos a liberdade de te dizer
é teu o que conquistámos
mesmo que o não sintas
porque não viveste o antes
mais do que a mão que fere
somos a mão que dá
nessa mão um cravo
um cravo para ti
hoje que é 25 de abril
e tu sem o sentires
és a razão de termos feito
de continuarmos a ser
mais do que a palavra
o gesto
dentro dele o teu cravo

(coimbra; 25 de abril de 2017)

como somos breves
como é ilusório este corpo onde
pendurado o pensar
sento-me e vejo que tudo passa
num infinitésimo de tempo
passado presente e futuro estão
caio e levanto-me ainda
sorvo o instante como se o último
e grito como se nascesse
digo de mim
(da janela do comboio, algures entre coimbra e a figueira da foz