óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

carlos padeiro – a ria por paixão


carlos padeiro

desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.

aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.

há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.

aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.

a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.

na torreira nasce-se pescador.

(murtosa – torreira – marina dos pescadores)

inês amorim – trabalho e tecnologia das pescas


há quantos anos?

inês amorim é professora catedrática da faculdade de letras da universidade do porto. natural de aveiro, doutorou-se em 1996 com a tese “aveiro e a sua provedoria no séc. XVIII (1690-1814).

investigadora profícua dos fundos documentais tem produzido, ao longo dos anos, um grande número de publicações de que destaco as sobre xávega, que considero das mais bem suportadas e estruturadas de quantas conheço.

aqui aparecerão todas as que consegui arranjar, mesmo pedindo à autora que foi de extrema solicitude.

o artigo que agora se apresenta, foi apresentado no VII congreso de la sociedad española de historia de las ciencias y de las técnicas, em pontevedra entre 14 e 18 de setembro de 1999.

não existindo em suporte informático foi-me enviado em fotocópias pela prof. inês amorim e a capa por inês pelleon, da associação.

o texto é fundamental para quem se preocupa com esta temática, a qualidade da sua visualização poderá não ser a melhor, atendendo aos procedimentos necessários para se chegar a um pdf.

ines amorim_transferencias tecnologia

o arribar em dois momentos


1º momento

e todos se salvaram

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

2º momento

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

(torreira; 2010)

em louvor das serras


(resta-me crescer para a terra)

pedregulhos imensos borbulhas disformes
cobrem a terra a água nasce gelada para a
minha sede nuvens raras brincam estranhos
jogos selvagem meio rude paisagem é noite

as trutas aguardam a hora de beijar no espelho
da lagoa as migalhas ancestralmente os homens
juntam-se em torno do fogo o fogo cerca a água
chamados nocturnos oiço a tenda pequena
junta-nos o chão duro magoa os corpos vivos

é manhã o corpo entrego à água
refrescando o cansaço para melhor morrer
então cresço para a terra 
só as serras crescem para o céu

(macieira; serra da gralheira; 2008)

como é belo o fim do dia ou o que tu não viste quando olhaste


arrumadas as artes
o barco adormece suavemente
nos braços da areia

uma gaivota
perde-se no longe antes
de lhe vir fazer companhia

na tasca os homens convivem
recordam histórias antigas
jogam às cartas e ao dominó
entre dois copos de três
três copos, quantos
a noite é longa

na barraca
na casa económica
aguardam a mulher e os filhos
é ela que guarda a casa
que garante que este barco não se afunda

como é belo o fim do dia

(torreira; 2008)

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)

pelo na venta


ermelinda bitaolra

(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)

tem pelo na venta
dizem

é duro viver aqui
arrancar com as minhas mãos
o pão ao mar
ser como o meu homem
sem favor de ninguém

o sal queima e endurece a pele
envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece

tenho pelo na venta
sim
quem o quiser negar
que venha ver
trabalhar o mar