ir ao mar com a companha dos leais


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para fazer o registo foram seguidas regras de oiro:
o mar estar manso (vê-se no registo)
ser convidado pelo arrais
adoptar todas as medidas de segurança (colete)
o posicionamento dentro do barco foi junto ao castelo da proa, encostado ao vertente, para ter apoio e maior estabilidade, uma vez que não há condições para montar tripés e a câmara está nas mãos.
o registo só se inicia depois de o barco ganhar o mar, passado o momento de embate na água, que resultaria sempre mal no registo e durante o qual é necessário estar bem firmado no barco.
fiz apenas um pequeno corte no momento de arribar, em que tive de mudar de posição dentro do barco, vindo sentar-me no primeiro traste da proa. assim a duração do registo é a duração de “uma ida ao mar”.
sem locução e sem música de fundo, quem vê o registo coloca-se no lugar de quem registou e …. vai ao mar também.
o lanço, de acordo com a terminologia das companhas do norte, foi do tipo “mão abaixo”, ou seja a mão de barca fica a sul do reçoeiro.
o aparelho da companha dos reais
como todos os aparelhos de xávega, este compõe-se de três peças fundamentais: calas, mangas e saco, dos quais importa caracterizar calas e mangas.
calas
são compostas por 10 a 12 varais – rolos de corda com cerca 200 a 220 metros
mangas
manga do reçoeiro e manga da mão de barca: ambas com cerca de 300 a 400 metros
nota:
os arinques – bóias – são amarrados nos calões – dois – e outros dois, três varais a seguir ao calões.
nas companhas do norte apenas não amarrados dois arinques junto aos calões
aqui fica o registo

 

(praia da leirosa; agosto; 2019)

crónicas da xávega (327)


no dia a seguir
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leirosa; carregar o saco; 2019

 
não bastava ser inverno
fizeste que o fosse
também dentro de mim
 
o amor por vezes desacontece
devia sabê-lo
 
não sou cínico
não te agradeço a lição
 
invento o sol
vou ver o mar
 
entro em mim
fabrico um verão
 

crónicas da xávega (322)


escrever com os olhos
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leirosa; carregar o saco; 2019

para mim, chegou ao fim mais uma época de fotografia daquilo de que efectivamente gosto. também eu tive a minha safra: o semear artesanal do arroz no baixo mondego, a ria de aveiro, com as bateiras e os moliceiros, a xávega em lavos e na leirosa, o sal na morraceira e nos armazéns de lavos.
ficam muitos registos guardados no armazém, em bruto e por trabalhar, que até à próxima época aqui estarão a dizer o como foi, a serem a memória dos dias dos homens, das mulheres e das fainas que registei.
mais que palavras é a escrita dos olhos que vou por aí deixando, sem pretensões de arte, nem de “bonitos”, mas procurando registar as fainas na sua forma mais pura: sem encenação
obrigado a todos os que registei e que, de forma efémera, oferto aos olhos de quem passa.

crónicas da xávega (315)


matola
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(praia da leirosa; alar do reçoeiro; 2019)

porque fotografar não é tirar fotografias
na praia da leirosa quem não é da terra é chamado de “matola”. nada de especial aqui haveria se o “moliceiro de mira” não tivesse esse nome.
será que este termo vai buscar as suas origens ao povoamento da leirosa e desta costa por parte dos povos da ria de aveiro, entre ílhavo e ovar?
assim “matola” tornar-se-ia identificador de uma zona a que já não pertenciam: a gândara, com a praia de mira no seu extremo norte.
para pensar e aprofundar, por quem se dedica a esta coisa da linguagem dos pescadores e ao estudo das palavras.