os moliceiros têm vela (579)


a eugénio de andrade

não há palavras
interditas perante o horror
netanyahu assassino

bombas e mísseis
lavraram a terra
que o sangue regou

nos escombros de gaza
um braço nasce
uma perna perdeu-se

desumana lavoura esta
semeadura de mortos
colheita de amputados

netanyahu assassino
não há palavras
interditas perante o horror

(moliceiros; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2014)

os moliceiros têm vela (575)


hoje é dia de s. paio

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas

livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos

é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros

os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros

os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca

os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema

(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)