um barco

o corpo
o mar
o prazer
as ondas
um barco

(praia de mira; 2010)
um barco

o corpo
o mar
o prazer
as ondas
um barco

(praia de mira; 2010)
faz-te ao mar

faz-te ao mar tóino
não há pão em casa tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê carapau tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê sardinha tóino
faz-te ao mar tóino
não tens outra vida
faz-te ao mar
faz-te

(costa de lavos; 2017)
o beijo

salgados serão
os lábios
se de mar
o beijo

(torreira; pancada de mar; 2016)
a pancada

será forte a pancada
de mar
respeito os homens
no barco
digo-te que maior
a dor
se em vez de mar for
de homem
a pancada

(torreira; 2013)
não te preocupes

ninguém te escreverá
para a tua última morada

(torreira; 2013)
diálogo com álvaro de campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
nem isso álvaro
nem isso

(torreira; 2013)
de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
para os devidos efeitos

quando eu morrer
não entreguem à terra
um corpo que sempre foi de mar
quando eu morrer
uma gaivota levantará voo
uma onda morrerá na praia
nada de anormal
são coisas que estão
sempre a acontecer
como
quando eu morrer

(torreira; 2010)
estórias da berma da estrada *

se livro houvera
seria o título
disseste-me
conheço-te e
muitas estórias tuas
sei que
não haverá livro
porque
o título já o é
(* título roubado ao meu irmão domingos augusto)

(torreira; 2010)