é delas o verão


 

apanha de ameijoa à cabrita baixa

 

como se formigas
mergulham os corpos
na ria
as ancas em movimentos
rítmicos arrastam as cabritas
carregam ameijoa

os joelhos
a coluna
os braços
os ombros
envelhecem
endurecem
os joelhos esmagadas cartilagens

as formigas
são gente
as cigarras
assistem em terra ao espectáculo
esfregando as mãos
na multiplicação
dos lucros

com o suor dos outros
ergueram o império
é delas o verão

(ria de aveiro, torreira)

é esta a gente


vitor caravela (falecido)_torreira, 2009

nasceram virados
ao mar
dele receberam
o primeiro embalo
a primeira prenda:
um peixe

todos os caminhos
são o mesmo caminho
é cega a arte que lhes dá
o pão
vai e não sabe se
cheia vazia grande miúdo

já poucos restam
já poucos sabem
já poucos resistem
partem para o alto
bacalhau palmeta pescada

chile terra nova áfrica

longes de onde se volta
para continuar

é esta a gente
que querem matar

vou com os barcos


ergo as palavras
sobre pedras
duras afiadas

as da calçada dos dias
que percorro

procuro o vento
que as leve
onde areias sorrisos
corpos desejos carícias

e as deixe cair
sonoras brutas
nos lagos
podres das avenidas

até lá
continuarei ainda
a estar vivo e a falar
desta coisa coisa chamada
fome de justiça
e amor às coisas da terra

assim me tomem
ou rasguem
vou com os barcos

(cais do bico; murtosa; 2011)

um homem só?


 

popola

 

um barco
o silêncio da praia
deitado na areia
escuta o suave
navegar das nuvens

um homem só
espera
não se sabe se amanhã
hoje
será o dia
o ultimo
o primeiro

um homem só
abandonado no seu país
pelos que nele mandam
e mandaram
dizendo representá-lo
e mandam
ainda mais

não é
um homem só
ou será?

todos somos
o homem só
ou negar-nos-emos
como povo

(torreira, 2008; à memória do arrais zé murta)

pescadores da torreira (cabrita alta)


 

joão manuel brandão

 

quantos anos tem um corpo?

 

ao pesado fardo

do ganha pão

os corpos curvam-se quebram-se

rápido se desgastam

 

retesados músculos

em esgar de dor

os rostos

são facas que cortam

quem os vê

 

cedo amanhecem os dias

e a ser os anos

ninguém os canta

poucos os contam

vivem no silêncio

aí permanecendo até que

 

alguns os exploram e exportam

o suor e o sangue

o corpo

feito mercadoria

lucrativa

vendida a estranhas gentes

 

são os pescadores

da torreira

o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre