as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

até quando?


(praia de mira; 2009)

que dizer-vos
destes tempos em que assisto
a tentativas sucessivas
de assassinato
da memória?

que dizer-vos
da raiva angústia
desespero
destas gentes
que são as as minhas
que são as nossas
que somos nós?

quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o hoje
o ontem?
 
quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o sermos?
 
o povo será sereno
mas até a serenidade
tem limites

até quando?

do renascer


moliceiro com a bandeira negra de luto entra no canal central de aveiro

 

a amargura pede

o esquecimento

a luta exalta

a lembrança

assim se fez este dia

 

vestiram-se de negro os barcos

 

no colorido da cidade

a bandeira negra

ergueu-se majestosa

com ela os homens

disseram bem alto

 

NÃO MATEM OS MOLICEIROS

 

há dias que ficarão

na memória

por terem sido o princípio

quando tudo parecia anunciar

um final antecipado

há quem morra nesses dias

 

mas

há quem renasça

é destes que falo

 

falo do homem e do barco


regata moliceiros torreira/aveiro 2010

 

com madeira

cordas cavilhas pregos

tintas panos

os mais variados aviamentos

e ferramentas

farás um barco

se da arte forres mestre

 

isso sabes

isso vês

mas saberás tu o que é

um barco

que navega dentro dele?

 

mais que um barco

materiais e saberes

é todo um povo

a sua história

a sua vida

 

olha para além do visível

e só assim verás

o que um dia

em livros sobre coisas mortas

encontrarás

 

faz a história

não a leias

nem deixes que ela se faça sem ti

 

falo do homem

onde o barco é

 

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/sociedade/moliceiros-na-ria-tapados-de-preto

há moliceiros na ria


 

há moliceiros na ria

 

portugal

ainda há moliceiros na ria

 

portugal

há homens que te amam

mais que a si mesmos

 

portugal

a dignidade de um homem

é mais forte que a força do dinheiro

 

portugal

ainda há homens aqui

homens que nada devem

e que tudo dão por ti

 

portugal

há portugueses

aqui

num recanto

chamado ria de aveiro

 

portugal

ainda há moliceiros na ria

homens e barcos

barcos e homens

 

portugal

feito assim a navegar

velas ao vento

dizendo-se ao mundo

o ser diferente

 

portugal

são estes os teus filhos

amam-te

o desígnio


conquistar os dias
um a um
vencer-se
para vencer
erguer-se

falo de homens
dos que muitos
a bordo de barcos nasceram
neles foram criados
e homens se fizeram
 
falo de moliceiros
nome dos homens
e dos barcos
que ambos se confundem
na labuta e no tempo
 
conquistar o futuro
sendo no presente
esse o desígnio

(regata da ria; 2011)

o moliceiro é bandeira


à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro
unem-se os homens
dão-se as mãos
fazem-se nós
limpa-se a sombra
renasce-se

o moliceiro
é bandeira
amor paixão
modo de vida foi
de memórias pleno
mais que eles
é todos os que antes o foram

uniram-se os homens
cuidem-se os que
ti zé rebeço, um homem da ria, a ria feita homem

pergunta estúpida?


escuta
ouves o rumor das águas
o quebrar das ondas
no casco
as velas pandas batendo
de tanto vento

o vento sopra do norte
o barco voa
a meta está próxima
chega em primeiro
ganhou a regata
 
depois
depois houve que o vender
os apoios não chegavam
para o manter
 
depois
depois não querem que haja regatas
 
é esta a história
de como os moliceiros
por falta de apoio
vão desaparecendo
 
por vezes pergunto-me
porque é que no brasil em vez
de casas tradicionais portuguesas
não construíram moliceiros

(regata da ria; 2010)