(as mãos sempre as mãos; torreira; 2005)
perdem-se as mãos por entre mares de escamas lavam-se os olhos de tanto mar
(alberto estrela; torreira; 2006)
boa noite estrela soube pelo teu filho você deve conhecer o meu pai o estrela a frase continua a martelar-me a cabeça que tinhas partido ninguém sabe para onde mas todos sabem que não voltas sabes estrela a vida é feita de encontros e desencontros nós há muito que não nos encontrávamos vinha e não te via e pensava está para o mar era normal e vai continuar a ser normal porque para mim estrela tu estás no mar e é por isso que não nos encontramos um abraço do teu amigo cravo
o barco vai partir as gaivotas barcos de outros ares esperam peixe na rede sobras a rolar nas ondas o barco vai partir enfrentar as ondas correr atrás do vento voar atrás das nuvens planar sobre as águas sorte se encontrar um cardume perdido e o transformar em refeição o barco vai partir partimos com ele ? só para ver como a vida no mar é dura
(torreira; anos 90)
o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste
arrumadas as artes o barco adormece suavemente nos braços da areia uma gaivota perde-se no longe antes de lhe vir fazer companhia na tasca os homens convivem recordam histórias antigas jogam às cartas e ao dominó entre dois copos de três três copos, quantos a noite é longa na barraca na casa económica aguardam a mulher e os filhos é ela que guarda a casa que garante que este barco não se afunda como é belo o fim do dia
(torreira; 2008)
(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)
tem pelo na venta dizem é duro viver aqui arrancar com as minhas mãos o pão ao mar ser como o meu homem sem favor de ninguém o sal queima e endurece a pele envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece tenho pelo na venta sim quem o quiser negar que venha ver trabalhar o mar