construção de um moliceiro (15)


29 de agosto

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depois de almoço chegámos ao estaleiro quase ao mesmo tempo, eu e o mestre zé rito. os dois e um moliceiro quase acabado.

com a rebarbadora o mestre lixava e depois afagava – interessante esta palavra – a madeira com a mão, para sentir a perfeição do trabalho efectuado.

palavras poucas, ouvia-se a rebarbadora, corria no ar uma poeira fina de madeira e o fundo do moliceiro adquiria um face nova.

havia ainda muito para fazer: calafetar, aparafusar, betumar, colocar pequenas cavilhas de madeira em pequenos furos…. tudo coisas miúdas, mas muitas.

ao longo da tarde foram chegando os amigos e o material que fazia falta. o mestre continuava sozinho, o seu trabalho enquanto a conversa o envolvia e amenizava a dureza da exposição ao sol.

na edição deste registo, mais que um momento queria transmitir um sentimento: o da solidão do mestre.

não sei se o consegui, mas depois de ter estado quase todo o dia no estaleiro só tinha uma frase para descrever o dia de hoje:

a solidão do mestre

espero que a sintam

NOTA – o bota- abaixo é pelas 15 horas, de quarta-feira dia 31

(torreira; 29 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (14)


28 de agosto

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o dia de fechar o fundo do moliceiro.

como se pode ver no registo de ontem, faltava colocar tábuas no fundo do moliceiro e fazer assim o fecho do fundo.

o olhar sabedor do mestre zé rito levou-o a escolher, do armazém, as tábuas de dimensões ideais para o efeito.

depois procedeu ao seu afeiçoamento de acordo com o método artesanal, que eu designo de “aproximações sucessivas”. é interessante ver o que separa os procedimentos científicos dos procedimentos artesanais.

sentado num banco/tronco ia espreitando pelas aberturas, ainda existentes no fundo, e por elas via os dois moliceiros que estavam ancorados na ria em frente ao estaleiro. eram janelas ideais para fotografar.

levantava-me de vez em quando e fazia uns registos.

a pouco e pouco fui ficando sem janelas, o fechar do fundo tapava-me a vista: um moliceiro novo enchia-me agora todo o campo visual. e isto também era novo.

neste registo o avelino ajuda a colocar a última tábua. quando ficou no sítio, levantei-me e saí.

muito trabalho há ainda por fazer. desde meter cavilhas, emassar, pintar ….. e voltar a virar de novo o barco para ser acabada a decoração, ser cheio de água e a madeira “fechar”.

amanhã também é dia, mas há cada vez menos dias.

(torreira; 28 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (13)


27 de agosto

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porque hoje é sábado e se avizinha o s. paio, muito mais gente se reuniu no estaleiro em torno do moliceiro em construção.

a meio da tarde, os mestres prosseguiam o trabalho quando, de repente, do meio dos amigos se ouve uma voz elevar-se:

– eh zé! com tanta gente aqui porque não aproveitas para virar o barco?

em pouco tempo parou a pintura e começaram os preparativos para virar o barco. esperava-se que, desta vez, viesse uma máquina para o fazer, mas os homens mandam mais.

seriam cerca da 17h30m quando o barco ficou virado – quase na vertical transversa – escorado a bombordo e estibordo, de forma a que se pudessem colocar as tábuas de fundo, que faltam para fechar totalmente o barco. não sei se as colocaram ainda hoje,,,, tudo é possível.

no final, comentava com um amigo: alguns dos que ajudaram, nunca imaginaram que o viriam a fazer de novo.

chamei o ti alfredo do táxi – 77 anos de vida repartidos entre a torreira e os estados unidos – e perguntei-lhe se contava, alguma vez voltar a fazer isto. a resposta, foi rápida e simples:

– foi a primeira vez que ajudei a virar um moliceiro novo.

para mim, pessoalmente, esta foto tem ainda outro valor, porque se houve um gorim que fez o registo, houve outro que ajudou a virar o barco, o meu primo domingos.

em torno de um moliceiro o que não pode acontecer!

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(torreira; 27 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (11)


25 de agosto

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os trabalhos têm continuado a bom ritmo, apesar da chuva de ontem.

neste registo pode ver-se o mestre zé rito a cortar a última tábua do leme, o pintor josé oliveira – zé manel, na beira ria – a pintar a bordadura do painel da ré e o pai, necas lamarão, a pintar a antepara da proa e o vertente.

o interesse deste registo reside no facto de que todos eles estão de costas, sendo assim os intervenientes identificados nominalmente aqui, mas representando toda uma tradição de construção naval artesanal de moliceiros.

repare-se que no bordo de estibordo já estão colocados os pés das falcas, a que se seguirá a fixação das mesmas.

as falcas de estibordo estão quase prontas.

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(torreira; 25 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (10)


23 de agosto

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hoje o pintor josé oliveira continuou a decoração dos painéis, com a ajuda do pai -necas lamarão.

o pai ajuda, e bem, na pintura das bordaduras, ficando a decoração dos painéis a cargo do filho.

neste registo necas lamarão pinta as bordaduras do painel de estibordo da ré e josé oliveira, ao fundo, as do painel de estibordo da proa.

durante alguns dias não publicarei mais registos da construção, até que surja um momento de envolvimento colectivo.

não demorará muito………..

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(torreira; 23 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (8)


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21 de agosto

hoje acabou-se o fecho dos costados do moliceiro.

neste registo o ti alfredo do táxi – porque foi dono do primeiro táxi da torreira, antes de emigrar – segura a tábua que o mestre zé rito aplaina e irá ser colocada na parte inferior da proa, a estibordo.

para fechar totalmente o barco, ficam só por colocar as tábuas de fecho do fundo.

amanhã começa o trabalho de decoração do barco, a cargo do pintor zé oliveira que, há cerca de 25 anos, decora moliceiros e para os quais vai inventando os temas que tão bem caracterizam os painéis. vamos ver o que sai desta vez.

quanto à colocação da tábua, depois de afeiçoada, não fiz qualquer registo porque…. fui membro da equipa do turno que a aguentou enquanto o mestre a fixava.

(torreira; 21 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (5)


18 de agosto

hoje o mestre zé rito continuou a trabalhar em pequenos, mas importantes detalhes da construção, nomeadamente a quase conclusão da bica da proa e ponteiras.

registei, pela sua valia humana de solidariedade e amor, o momento em que todos os que foram precisos ajudaram a colocar a tábua de baixo, do costado de bombordo.

tirando uma pequena lacuna na ré, o bombordo ficou fechado – até à hora em que saí do estaleiro.

talvez amanhã quando lá chegar já esteja fechado. quando saí ontem faltava colocar a tábua de baixo do costado de estibordo à ré, hoje de manhã já estava no sítio.

o barco vai-se fazendo de acordo com o saber do mestre, com os métodos herdados na sua aprendizagem e aperfeiçoados no seu fazer diário. de acordo com o seu tempo.

não sou técnico, sou o que olha e vê os homens e um barco que pulsa dentro deles e os faz rir e conviver, como se em torno de uma mesa farta.

o tempo aperta, o mestre não descansa, os amigos esperam, plateia atenta, que um pedido surja e logo é satisfeito.

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construção de um moliceiro (4)


17 de agosto

hoje começou o fecho do barco.

o mestre zé rito afeiçoou a segunda tábua de costado de bombordo e procedeu-se à sua fixação.

do fazer de cavilhas de madeira, que se vêem ao longo da tábua, até aos ângulos de corte da tábua e ao molde para o fazer, muitas foram as pequenas tarefas e alguns os conceitos novos que aprendi.

para a colocação da tábua e ajuda à sua fixação de novo, como sempre, apareceram amigos prontos a ajudar.

ao fixar neste registo o barco, já na sua forma final, e um homem de costas – que eu sei que é o avelino – quero simbolizar TODOS os que, de algum modo, têm estado presentes durante a construção do moliceiro e, com todo o empenho possível, têm dado o seu contributo para a construção.

a cada dia que passa, mais vejo esta construção como a GRANDE CELEBRAÇÃO COLECTIVA E ESPONTÂNEA DA RIA.

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(torreira; 17 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (3)


16 de agosto

depois das tarefas que envolveram grande número de amigos, entramos na fase dos pormenores.

nos últimos dias o mestre zé rito tem vindo a trabalhar no afinamento de pequenos detalhes, colocação das ponteiras da bica da proa, pequenas peças na bica da ré, emassar e polir madeiras.

hoje ficou concluída a colocação do traste e ficará ainda colocada a peça que aqui registo: o vertente (bertente).

colocado do lado da proa da quinta caverna, começa nele o castelo da proa e nele termina o coberto do castelo da proa.

juntamente com o traste são peças de colocação transversal que dão rigidez à estrutura.

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a construção de um moliceiro (2)


12 de agosto (conclusão)
serve este registo para mostrar outro acessório necessário à colocação das dragas e dos bordos: a gata.

à esquerda vê-se um grampo a prender a draga ao bordo exterior, à direita “a gata” engata por debaixo da draga que, alavancada por uma vara de madeira pressionada por 3 homens, é elevada à altura pretendida.

depois é apertada pelo grampo e finalmente fixada ao bordo por meio de ferragem adequada.

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12 de agosto (cont)

colocada a draga dentro do casco, começou por ser fixada à ré, com o grampo que se vê em primeiro plano.

depois é ajustada à proa e elevada com a ajuda de uma alavanca improvisada.

por ser uma tarefa de alguma complexidade e interesse, irei documentá-la um pouco melhor.

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12 de agosto

a draga de bombordo está pronta a ser colocada no interior do casco.

embora o trabalho do dia se tenha concluído com a fixação da draga, pretendo com este registo mostrar o espírito que habita as gentes da beira ria quando se constrói um moliceiro: solidariedade e companheirismo.

assim fosse sempre e em tudo

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a união faz a força

11 de agosto

a draga é “afeiçoada” à curvatura do bordo, com a ajuda de grampos que fazem fixe entre o exterior do bordo e o exterior da draga. assim ficam os dois perfeitamente paralelos.

neste registo vêem-se vários grampos já fixados e o setenove a preparar mais um que colocará com a ajuda do mestre zé rito ou, ao contrário, que o mestre zé rito colocará com a ajuda dele.

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10 de agosto

as dragas são peças análogas aos bordos, sujeitas ao mesmo tratamento, e que correm por dentro das cavernas e braços, paralelas aos bordos.

hoje o mestre zé rito, sempre com a ajuda e a presença do avelino, afeiçoou uma draga, que tal como os bordos esteve mais de 3 meses mergulhada na ria.

sente-se no ar o cheiro a lodo e o aroma da madeira é diverso.

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o mestre zé rito serra a madeira, enquanto o avelino vai varrendo a draga para manter visível a linha de corte