solheira – o safar das redes ou outra forma de dança


 

o massa a safar

atracada a bateira, vai o pescador descansar.

a madrugada e a manhã foram gastas no largar e no alar.

regressa depois de comer e começa a safar as redes.

uma das formas de safar as redes é dentro da própria bateira, e a
rede passa, por cima de uma vara, da ré para a proa enquanto se vai safando.

a dança que começou na ria para a ré, faz-se agora da ré para a proa.

o massa, em primeiro plano, é um homem de mar e de ria, de força e de trabalho, que canta com tanta alma quanto aquela que põe na faina.

(torreira; marina dos pescadores;2010 )

safar as redes, safar a vida (I)


 

salvador rilho (chalana)

o primeiro safar das redes começa no alar.

então se safam os peixes – chocos, linguados… – e se safam caranguejos, alforrecas e as algas maiores.

metro a metro, rede a rede, andar a andar, a rede vai-se acumulando junto à ré, entre o meio do barco e os pés do pescador.

sente-se que a beirada se aproxima da ria e o barco se torna mas pesado à medida que se ala.

depois, regressa-se à marina dos pescadores e outros dançares a rede fará.

na metade traseira do barco o seu primeiro passo

(torreira; 2010)

o safar das redes na arte solheira (I)


a dança do safar

na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.

durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.

olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem

(cais do bico; murtosa; 2010)

do vazio


 

era inverno em mim

incomensuráveis espaços diminutos

vazias casas inóspitas prisões inescapáveis

pesadelos diurnos de percursos circulares

acesas noites gélidas de sonos episódicos

invertebrado tempo de inumeráveis dias

antiquíssimo bater de horas

ressoando em torres ancestrais

palidez lunar de fantasmas seculares

meticulosamente se constrói

o vazio

 

muralha de bordões


 

muralha de bordões
quando em horas felizes
o peixe enche o saco
é necessário “segurá-lo”
para que as ondas não o arrastem pela areia
enquanto se espera o momento favorável
para o levar para seco
e fazer a escolha do peixe

então
um exército
armado de bordões
constrói uma muralha
e salva-se uma maré boa

(torreira; companha do marco; 2009)

 

o bordão da regeira da ré


(torreira; companha do murta; 2009)

as mulheres da torreira
sabem do bordão
o peso
carregam-no às costas

como carregam
a lida da casa
as contas da mercearia
o pão para os filhos
o peixe para a janta

a sardinha
arde na brasa
a cavala na panela
as batatas

mais um dia
menos um dia
quem sou eu
para lhes falar do tempo
se só sei ouvir o mar

do bordão e das suas funções no largar


 

ti antónio neto (falecido)

continuemos a falar do bordão

na praia da torreira, na hora da partida, o barco é seguro por 3 cordas e a muleta (de madeira)
as cordas são:

– o reçoeiro, extremidade da corda (cala) que, ligada à rede fica em terra, e enrolada na bica da ré é manejada pelo arrais  no segurar do barco

– a regeira da ré, também enrolada à bica da ré e mantida firme por um grupo de homens e mulheres

– a regeira da proa, presa por vezes a um dos golfiões da proa, e que é presa, em terra, a um bordão que é enterrado na areia.

desta forma se mantém o barco perpendicular à praia, fazendo frente às ondas sem risco de virar.

o ti antónio, que já lá vai noutros mares, era sempre, na companha do marco, o homem que levava o bordão da regeira da proa, o enterrava na areia e fazia.

de poucas palavras, como o bordão que tão bem conhecia.

até sempre ti antónio, neto de apelido, de que conheci o pai e cujos sobrinhos netos, que filhos não os teve, continuam na faina da xávega

(torreira; 2009)