os velhos (I)


assim, como se ainda
os velhos atravessam o tempo de memória
com mão ágil lágrima grossa regressam

os velhos caminham caranguejos lentos
medusas de horas e anos

os velhos ajoelham calos e varizes
nas pedras gastas do passado

os velhos contam histórias antigas
sabedoria de séculos

os velhos afagam as crianças
macias as mãos grossas magras ossudas

os velhos arrastam-se e caem
cansadas as pernas fechados os olhos

os velhos às vezes já estão mortos
outras morrem ainda mais velhos

os velhos vivem e recordam
e não vivem e recordam ainda

os velhos já foram
por isso são

poema do barco


o óscar miguel (barco) com o rodrigo na proa
é de água a minha terra
terra o meu fim

carcaça
descansarei um dia
na imensidão da areia

com o tempo
desfeito
serei levado pelas marés
ou queimado na fogueira

entre água terra e fogo 
me cumpro

ser barco
é ter sido para voltar a ser

é de água a minha terra
terra o meu fim

artes da ria


uma das artes de pesca utilizadas na ria é a chamada “chincha de pareja”. até meados do século XVIII, no sul de espanha, mais precisamente na catalunha esta arte foi utilizada com o aparelho da xávega.

a rede é arrastada por duas bateiras, varre o fundo da ria e destina-se à pesca da enguia, do choco miúdo, do linguado, do que vier.

uma das bateiras leva a rede que lança à ria ficando com a corda de “reçoeiro”, a outra leva a corda “mão de barca”, as duas lado a lado arrastam a rede que é do tipo de chinchorro.

normalmente a pesca pode durar toda uma noite, cerca de 12 horas, ou mais, até se apanhar caldeirada que justifique a pescaria. a companha é formada por 6 a oito homens, esta inclui uma mulher.

a rede, finalizado o cerco, é alada para a bateira que a carrega e todos os pescadores colaboram no alar manual e no safar do peixe e das algas. é um trabalho muito duro e repetido durante muitas vezes ao longo da faina.

penso que neste momento existem 3 “chinchas de pareja” na torreira e não sei se mais alguma na ria.

esta é a chincha do manel trabalhito, dono da bateira “lutar para vencer”.

a bateira da foto é a que arrasta a corda e à popa vai o filho do manel trabalhito, também manel, que nesse dia ia apanhar uma caldeirada de enguias para se despedir: ia para a pesca do bacalhau ganhar a vida.

é assim a vida dos pescadores da torreira: ganhar a vida no mar e subsistir na ria.

(manuel trabalhito – filho – e carlos tetinha; torreira; 2009)

meu nome é boi


bois de força – marinhões

meu nome é boi
nosso nome é junta

puxamos barcos e carros
carregamos peixe e redes

carne e músculos tensos
olhos desmesuradamente grandes
mansos até ao inadmissível

juntos
somos força somos junta
somos bois

sozinhos
no talho no mercado
esquartejados em carne viva
somos vaca

boi é e não é
é sempre o homem que decide

bois de força – marinhões

(torreira; séc. XX) – do meu livro “quando o mar trabalha