os velhos atravessam o tempo de memória com mão ágil lágrima grossa regressam os velhos caminham caranguejos lentos medusas de horas e anos os velhos ajoelham calos e varizes nas pedras gastas do passado os velhos contam histórias antigas sabedoria de séculos os velhos afagam as crianças macias as mãos grossas magras ossudas os velhos arrastam-se e caem cansadas as pernas fechados os olhos os velhos às vezes já estão mortos outras morrem ainda mais velhos os velhos vivem e recordam e não vivem e recordam ainda os velhos já foram por isso são
ahcravo gorim
poema do barco
é de água a minha terra terra o meu fim carcaça descansarei um dia na imensidão da areia com o tempo desfeito serei levado pelas marés ou queimado na fogueira entre água terra e fogo me cumpro ser barco é ter sido para voltar a ser
é de água a minha terra
terra o meu fim
artes da ria
uma das artes de pesca utilizadas na ria é a chamada “chincha de pareja”. até meados do século XVIII, no sul de espanha, mais precisamente na catalunha esta arte foi utilizada com o aparelho da xávega.
a rede é arrastada por duas bateiras, varre o fundo da ria e destina-se à pesca da enguia, do choco miúdo, do linguado, do que vier.
uma das bateiras leva a rede que lança à ria ficando com a corda de “reçoeiro”, a outra leva a corda “mão de barca”, as duas lado a lado arrastam a rede que é do tipo de chinchorro.
normalmente a pesca pode durar toda uma noite, cerca de 12 horas, ou mais, até se apanhar caldeirada que justifique a pescaria. a companha é formada por 6 a oito homens, esta inclui uma mulher.
a rede, finalizado o cerco, é alada para a bateira que a carrega e todos os pescadores colaboram no alar manual e no safar do peixe e das algas. é um trabalho muito duro e repetido durante muitas vezes ao longo da faina.
penso que neste momento existem 3 “chinchas de pareja” na torreira e não sei se mais alguma na ria.
esta é a chincha do manel trabalhito, dono da bateira “lutar para vencer”.
a bateira da foto é a que arrasta a corda e à popa vai o filho do manel trabalhito, também manel, que nesse dia ia apanhar uma caldeirada de enguias para se despedir: ia para a pesca do bacalhau ganhar a vida.
é assim a vida dos pescadores da torreira: ganhar a vida no mar e subsistir na ria.
(manuel trabalhito – filho – e carlos tetinha; torreira; 2009)
das janelas e das portas
ver o mar
um sorriso
de tanto amar
acordam o sol

acordam o sol põem a mesa o pão o café o mais se houver levantam-se carregam a enxada limpa da terra de ontem palmilham caminhos sacham cavam regam dobradas as costas ao peso do sol e da idade deitam-se com o sol que com ele se ergueram irmãs de ser hoje mais um dia
(louriçais; eira pedrinha; 2005)
meu nome é boi
meu nome é boi
nosso nome é junta
puxamos barcos e carros
carregamos peixe e redes
carne e músculos tensos
olhos desmesuradamente grandes
mansos até ao inadmissível
juntos
somos força somos junta
somos bois
sozinhos
no talho no mercado
esquartejados em carne viva
somos vaca
boi é e não é
é sempre o homem que decide
(torreira; séc. XX) – do meu livro “quando o mar trabalha“













