pelo na venta


ermelinda bitaolra

(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)

tem pelo na venta
dizem

é duro viver aqui
arrancar com as minhas mãos
o pão ao mar
ser como o meu homem
sem favor de ninguém

o sal queima e endurece a pele
envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece

tenho pelo na venta
sim
quem o quiser negar
que venha ver
trabalhar o mar

o nosso vizinho


(pouca pena; soure; 2005)
nunca lhe soube o nome
era
o nosso vizinho

sempre em torno
das suas duas paixões e preocupações
o carro e a esposa

era vê-lo
nas tarde soalheiras de inverno
capô aberto a dar de respirar ao motor
a sacudir os tapetes
a pôr o motor a trabalhar e
a andar dez escassos metros com o carro

era vê-los
sentados ao sol  manso de inverno
abrigados do vento frio
pelas paredes de vidro e chapa do carro
ele a ler o jornal
ela a fazer renda

nunca lhe soube o nome
conheci-lhe porém um pouco da vida
mais importante que o nome
nas conversas parcas das horas mortas
do intervalo de almoço

gostava de os ver a descer a calçada
a caminho da bica
depois de almoço ou do jantar
se o tempo ajudava

nunca lhe soube o nome
mas nunca lhe esquecerei o rosto
a educação que já não se usa
o dobrar ligeiro sem ser servil
da coluna 
enquanto levava a mão à cabeça
para solevar o boné
o cumprimento sempre pronto
coisas de aldeia perdida na cidade

nunca lhe soube o nome
e agora
mesmo que o viesse a saber
já não poderia chamar por ele 

será sempre
o nosso vizinho

nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos

memórias do moliceiro


o barco moliceiro, princesa da ria

de todos os barcos que sulcaram, ou sulcam ainda, a ria o moliceiro é sem dúvida o mais belo. atrever-me-ia a dizer que é em simultâneo uma obra de arte e um instrumento de trabalho.

perfeitamente adaptado ao trabalho na ria, em que a as águas de pouca profundidade são predominantes, o moliceiro é um barco de fundo chato com um pontal de 40 a 45cm, navegando, quando carregado, com os bordos ao nível da água.

o facto de o pontal (distância entre o convés/bordo e o fundo) ser tão pequeno, facilita o trabalho dos moliceiros que, para arrancar o moliço do fundo, arrastavam os ancinhos os quais, depois de carregados tinham de ser erguidos e despejado o moliço dentro do barco. quanto menor o pontal, menor o esforço despendido.

se na sua construção de base se encontra uma adaptação ao meio onde se move, e ao fim a que se destina, há porém factores que nada tem de utilitário: a forma da bica da proa e os painéis pintados à proa e à popa ou ré.

o que é que terá levado a que o moliceiro tenha uma bica da proa tão curva? tão semelhante à da barca de mar (da arte-xávega)? não há qualquer finalidade utilitária nestes pormenores, são puros adornos.

com um comprimento entre 14,50m e 15m (Drª Ana Maria Lopes – Moliceiros : A Memória da Ria) e uma boca entre os 2,50m e os 2,60m, o moliceiro é um barco de linhas esbeltas e extremamente elegantes: uma jovem princesa que se passeava pela ria.

é esse o seu encanto, a causa da paixão de todos os que nele trabalharam, passearam ou meramente contemplaram. é impossível ficar indiferente a uma princesa. por amor a ela às regatas todos se entregam, sem contrapartidas que não a emoção.

os moliceiros e apanha do moliço

de acordo com “ Relatório Oficial do Regulamento da Ria”, de que é co-autor o então capitão-tenente jayme affreixo, publicado em 1912, os números relativos à apanha de moliço eram os seguintes:

1.883 …. 1.342 barcos

1889 ….  1.749 barcos ——     957 moliceiros ——-     2.687 lavradores

1911 …. . 1.054 barcos —–      875 moliceiros ——-     1.633 lavradores

“A estatística de 1.883 dá 158:000$000 réis para o valor anual da colheita ao preço médio de 1$250 réis a barcada.

o cálculo do seu rendimento pode fazer-se de acordo com o seguinte modo:

“Existem 1.500 barcos (aos 1.054 registado na capitania acrescenta 400 a 500 não registados), cada um dos quais, nos 3 meses de Agosto, Setembro e Outubro, à razão de uma barcada por dia de trabalho, colhe seguramente 70 barcadas, cujo preço médio não é inferior a 1.$800 réis; e, no resto ano, à razão de uma barcada por 4 ou 5 dias, colhe 30 barcadas ao preço médio de 4$000 réis. Igualando porém este preço ao anterior, para desconto de barcos de lavradores que nesta segunda época não exercem a apanha temos: 1.500 barcos, com 100 cargas cada um, a 1$800 réis, ou seja um rendimento anual de 2.700$000 réis”.

ainda de acordo com o mesmo relatório:

“ Em 1907 e 1908 o rendimento total da produção marinha da ria de Aveiro é:

Peixe ………. ………………………………….…54.000$000 réis

Peixe de viveiros ………………………….……3.000$000 réis

Algas (moliço) valor superior a …….. 270.000$000 réis

Juncos, valo superior a ………………..   73.000$000 réis

Total …………………………………….…… 400.000$000 réis”

por aqui se vê o valor que representava o moliço na riqueza produzida pela ria.

(torreira; 2008)