salvé césar gorim


(o guiador da bicicleta; murtosa; s/d)

guiador guia-me

ensinou-me a amar a ria
de miúdo levava-me pelos canais

da palavra ensinou-me o valor
da verdade ensinou-me a dizê-la

dos homens o respeito e o amor
ao próximo

em 1978 partiu
a mim só me deixará
quando eu partir também

quando com ele
bom dia senhor césar e companhia
assim cresci na murtosa

salvé césar gorim

alberto estrela (aos amigos que partiram)


(alberto estrela; torreira; 2006)

boa noite estrela

soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela

a frase continua a martelar-me
a cabeça

que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas

sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos

vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal

e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos

um abraço do teu amigo

cravo

a caldeirada


(muito resumidamente)

quando em 1751, segundo a prof. inês amorim, a xávega chega a portugal, mais precisamente à costa do furadouro e torreira, já os pescadores da ria iam ao mar, à sardinha, com grandes chinchorros.

o fechamento da barra da ria, só reaberta em 1808, fez com que os pescadores da ria levassem as suas artes para o mar e nele lavrassem a sardinha que abundava.

com o aparecimento das traineiras e, mais tarde, com a utilização do cerco americano na pesca da sardinha, é feita uma “limpeza” na costa e as companhas passam por momentos de crise e reconfiguração. muitas desaparecem.

era então comum, e foi-o durante muito tempo, uma retribuição em espécie (peixe) aos pescadores – a caldeirada, quinhão, rapola, teca (no sul).

hoje em dia, nas companhas que restam, já não é a sardinha a fonte de riqueza, mas sim o carapau. a retribuição em espécie, como regra, desapareceu e o normal é os pescadores levarem para casa, para o almoço ou a janta, peixe de pouco valor comercial.

neste caso, o dono da companha, josé monteiro, resolveu distribuir uma caixa de carapau por todos os membros da companha.

assim, fizeram-se 18 montes, que se foram acertando até ficarem praticamente todos iguais.

(praia de mira, companha do zé monteiro; 2009)

óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

o arribar em dois momentos


1º momento

e todos se salvaram

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

2º momento

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

(torreira; 2010)

em louvor das serras


(resta-me crescer para a terra)

pedregulhos imensos borbulhas disformes
cobrem a terra a água nasce gelada para a
minha sede nuvens raras brincam estranhos
jogos selvagem meio rude paisagem é noite

as trutas aguardam a hora de beijar no espelho
da lagoa as migalhas ancestralmente os homens
juntam-se em torno do fogo o fogo cerca a água
chamados nocturnos oiço a tenda pequena
junta-nos o chão duro magoa os corpos vivos

é manhã o corpo entrego à água
refrescando o cansaço para melhor morrer
então cresço para a terra 
só as serras crescem para o céu

(macieira; serra da gralheira; 2008)

como é belo o fim do dia ou o que tu não viste quando olhaste


arrumadas as artes
o barco adormece suavemente
nos braços da areia

uma gaivota
perde-se no longe antes
de lhe vir fazer companhia

na tasca os homens convivem
recordam histórias antigas
jogam às cartas e ao dominó
entre dois copos de três
três copos, quantos
a noite é longa

na barraca
na casa económica
aguardam a mulher e os filhos
é ela que guarda a casa
que garante que este barco não se afunda

como é belo o fim do dia

(torreira; 2008)

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)