como caem as árvores


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1. ouvi o barulho da serra. levantei-me. vesti-me. peguei na máquina. aproximei-me e comecei a fotografar. que não podia. que tinha de sair. que me tiravam a máquina. semblantes carregados. rostos fechados. cercas encerradas de imediato.

afinal, só estavam a abater 3 árvores. só isso. porquê o medo? porquê? o que é que estava a fazer?

2. voltei mais tarde. de longe. equipado. fica o registo

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3.

a ordem

o homem
a mão
a serra

a ferida
o esticão
a morte

as árvores
dormem nas nuvens
os homens
quando acordarão?

apelo de uma árvore


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aqui onde me vês
cresci para as nuvens
e para a terra
sou mais que ninguém
d’aqui

não tenho pernas
tenho raízes fundas
que me prendem

não tenho corpo
tenho tronco que te abriga
não tenho braços nem dedos
tenho ramos e folhas
que te fazem sombra
e te protegem da chuva mansa

não falo
não reclamo
não grito

espero que tu
que tens pernas braços dedos
e voz sejas agora
o que eu para ti fui

o abrigo
a defesa
o amigo

aqui
na rua joaquim sottomayor
onde marcaram quatro irmãs
para serem abatidas

não os deixes

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(figueira da foz; 21 de julho, 2017)

marcadas para abater


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junto à esquina norte, antes dos semáforos

“vamos alargar a rua e, não vê, estão velhas”

e foi assim, hoje de manhã, que um funcionário respondeu, quando lhe foi perguntado se as árvores que estavam a marcar eram para abater.

sim, são para abater!

sim estão marcadas!

sim são árvores, árvores em plena cidade, certamente mais velhas que o funcionário de velho pensar.

proteger as árvores, com certeza! agora as nossas, no meio da cidade…. são para arrancar.

já arrancaram as mais jovens, chegou a vez das “mais velhas”.

assim vamos por cá

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(figueira da foz, 20 de julho, 2017)

todas as quatro árvores estão marcadas com uma cruz pintada a branco, para que quem venha saiba que ….. são para abater