postais da ria (181)


nunca mais

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rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão

à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos

o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia

do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria

olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória

sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem

não há futuro aqui
nunca mais

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a névoa cobre tudo, até o futuro

(torreira)

postais da ria (179)


por vezes leio jornais

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cabrita de pé

sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos

sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns

sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias

sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto

sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são

eles também
e há quem saiba muito mais

eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

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muito dura a arte da cabrita

(torreira; cabrita de pé)

postais da ria (176)


também não sei

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quando tiver vela será livre

(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)

que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas

conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser

que coisa é o homem?
boa pergunta carlos

também não sei

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encalhada e bela, nada mais digo dela

postais da ria (173)


as mulheres da torreira

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a lurdes (orelhas) varre a bateira e a seguir o orelhas (henrique) bota o breu

elas vendem peixe
são mães
criam filhos e netos

elas vão ao rio
cozinham
lavam a roupa

elas safam redes
tratam da casa
fazem as contas

elas são
as mulheres da torreira

eles são
os homens delas

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o casal orelhas e o trabalho de equipa

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (172)


os meu amigos da ria

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o meu amigo joão magina

os chocos não conhecem
esta bateira

dizia o joão hoje à tarde

a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?

o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?

até quando a ria?

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a safar as redes da solheira

(torreira; 15 junho, 2016)

postais da ria (171)


hoje sou âncora

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o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

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uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (170)


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o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

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o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)