postais da ria (184)


o cigano

0 ahcravo_DSC_7489 bw
onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

0 ahcravo_DSC_7489

(torreira; porto de abrigo; 2016)

postais da ria (182)


da amargura

0 ahcravo_fernando fonseca_DSC_7283 bw

o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

0 ahcravo_fernando fonseca_DSC_7283

o colorido dos dias é agora outro

(torreira; julho; 2016)

postais da ria (181)


nunca mais

0 ahcravo_DSC_0295 bw 1

rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão

à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos

o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia

do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria

olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória

sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem

não há futuro aqui
nunca mais

0 ahcravo_DSC_0295 a

a névoa cobre tudo, até o futuro

(torreira)

postais da ria (179)


por vezes leio jornais

0 ahcravo_DSC_2243 bw

cabrita de pé

sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos

sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns

sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias

sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto

sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são

eles também
e há quem saiba muito mais

eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

0 ahcravo_DSC_2243

muito dura a arte da cabrita

(torreira; cabrita de pé)

postais da ria (176)


também não sei

0 ahcravo_DSC_5011_bateria com mastro bw

quando tiver vela será livre

(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)

que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas

conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser

que coisa é o homem?
boa pergunta carlos

também não sei

0 ahcravo_DSC_5011_bateria com mastro

encalhada e bela, nada mais digo dela

postais da ria (173)


as mulheres da torreira

0 ahcravo_DSC_1967_lurdes+henrique bw

a lurdes (orelhas) varre a bateira e a seguir o orelhas (henrique) bota o breu

elas vendem peixe
são mães
criam filhos e netos

elas vão ao rio
cozinham
lavam a roupa

elas safam redes
tratam da casa
fazem as contas

elas são
as mulheres da torreira

eles são
os homens delas

0 ahcravo_DSC_1967_lurdes+henrique

o casal orelhas e o trabalho de equipa

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (172)


os meu amigos da ria

0 ahcravo_DSC_1985_joão magina bw

o meu amigo joão magina

os chocos não conhecem
esta bateira

dizia o joão hoje à tarde

a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?

o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?

até quando a ria?

0 ahcravo_DSC_1985_joão magina

a safar as redes da solheira

(torreira; 15 junho, 2016)