postais da ria (171)


hoje sou âncora

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o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

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uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (170)


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o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

0 ahcravo_DSC_8378_cirandar_henrique cunha

o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)

 

 

postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

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o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

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pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

postais da ria (168)


hoje quero aprender

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o rico enche a ciranda de berbigão e conchas, por entre as barras hão-de cair as conchas e o o berbigão miúdo

 

joeira os dias
ciranda as memórias

escolhe
lembra apenas o que

limpa-te das chagas
sofridas

sorri de lembrares
sorrisos

depois de o fazeres
ensina-me
como conseguiste

hoje quero aprender

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(torreira; junho, 2016)

postais da ria (163)


em torno de mim

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impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

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(murtosa; cais do bico)

postais da ria (160)


nem isso

(TABACARIA

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
………………. 

Álvaro de Campos)

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sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco

esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se

ao fundo
muito ao fundo
uma voz

nem isso

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(torreira)