postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

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o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

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pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

postais da ria (168)


hoje quero aprender

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o rico enche a ciranda de berbigão e conchas, por entre as barras hão-de cair as conchas e o o berbigão miúdo

 

joeira os dias
ciranda as memórias

escolhe
lembra apenas o que

limpa-te das chagas
sofridas

sorri de lembrares
sorrisos

depois de o fazeres
ensina-me
como conseguiste

hoje quero aprender

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(torreira; junho, 2016)

postais da ria (163)


em torno de mim

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impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

0 ahcravo_DSC_8662 bico c
(murtosa; cais do bico)

postais da ria (160)


nem isso

(TABACARIA

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
………………. 

Álvaro de Campos)

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sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco

esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se

ao fundo
muito ao fundo
uma voz

nem isso

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(torreira)

postais da ria (158)


o meu amigo raul

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como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo

parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família

é no alto mar
que fazem vida os homens daqui

a ria é cada dia mais
para quem espera partir

ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo

o caminho raul
é para a barra

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(torreira)

postais da ria (157)


a magia da ria

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há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

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o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)