postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria

postais da ria (199)


do viver

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o meu amigo ti zé formigo

há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de

eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

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o prazer da ria é ser nela todo

(torreira; s. paio; 2014)

o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida

os moliceiros têm vela (234)


os contribuintes, os fotógrafos, a janela e as mãos sujas

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no final da regata dos moliceiros do s. paio, quando regressávamos de uma tarde de emoções fortes, vividas na ria, fomos recebidos por alguns contribuintes que nos disseram termos estragado o visionamento da regata, por andarmos de barco a acompanhá-la. também no face houve quem o escrevesse .

ora bem, o s. paio é a festa da ria e festeja-se na ria, eram muitos os barcos de recreio e de pescadores que, em dia de descanso, andavam na ria a acompanhar a regata. é assim, sempre foi assim. os barcos com fotógrafos eram poucos, quem dera fossem mais, porque mais dinheiro deixavam nos bolsos dos pescadores que os levavam. foi neles quem quis, ficou em terra quem assim o entendeu.

sujámos a imagem da regata? e nós no meio da ria, não tínhamos também barcos no nosso horizonte visual? é tudo uma questão de saber o quando e o como disparar. há quem tenha feito belíssimos trabalhos de terra.

mas, já agora que queriam ver tudo, não terão reparado que na regata não havia só moliceiros? não ouvi ninguém manifestar a sua opinião a esse respeito. é verdade, participaram na regata duas bateiras mercantelas – conforme informação de um tripulante de uma delas. será isso correcto quando na véspera houve uma regata de bateiras à vela com duas classes?

estranho é terem dito que estavam em competição, sem qualquer reparo ou impedimento da organização e, na página do município da murtosa – https://www.facebook.com/municipiodamurtosa/posts/1096215667123441 -, quando se vê a lista dos participantes, não estão lá mencionadas.

da minha janela, a bordo de um moliceiro, assisti a tudo.

afinal, competiram ou não? era interessante esclarecer essa situação.

quanto a mãos sujas, também eu as tenho de andar a trazer muita “porcaria” ao de cima, só que não estou agarrado a ela.

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(regata do s. paio, 2016, a bordo do moliceiro “Dos Netos)

postais da ria (185)


bota c …..

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o trabalho começa dias antes com a reparação e pintura das bateiras e dos remos. têm de estar lindas e em condições de correr na grande festa do s. paio, na corrida a remos.

são “bateiras de bicas”, “chinchorros”, maiores que as “bateiras caçadeiras” e já não são muitas. formam-se as equipas, fazem-se as inscrições e recebem-se as camisolas, de cores diferentes por bateira e equipa.

no sábado é a corrida, a mais emocionante e rápida de todas as que se realizam no s. paio: não chega a durar 8 minutos e é só emoção.

espetadas do lado da serra – para os pescadores os pontos cardeais são: mar, serra, baixo e cima – as varas que marcam a posição de partida, cada bateira tem a sua, as equipas partem da zona do guedes – um nome que ficará para além do tempo – e, a remos ou a reboque, vão calmamente ocupar o seu lugar.

há sempre uma ou duas equipas de mulheres, ou com mulheres. numa dessas equipas ia o meu amigo setenove, já no meio da ria, quando lhe pedi para montar a câmara na bateira em que ia, disse que não e indicou-me aquela em que a montei, gritando:

bote na “marisa e andré” que essa ganha!

montar a câmara foi uma aventura, quando saí da bateira não sabia se tinha ficado a gravar ou não – a pressão da equipa, a ondulação da ria com nortada e, no fim, o cinto preso nos golfiões…. foi só stress.

quando vi que tinham de facto ganho a corrida, a minha tensão aumentou de novo: e se não tivesse gravado?

quando cheguei à bateira, um pescador, membro da equipa, sossegou-me:

gravou sim, que eu pus a mão à frente e vi que estava a gravar.

só em casa descansei quando visualizei a gravação e depois de tomar um calmante.

o resultado está aqui, mas não chega aos calcanhares da emoção que se vive a acompanhá-los, quanto mais participando.

nota: as palavras valem pelo modo e contexto em que são ditas. no meio da ria, em plena competição, as palavras nascem das vísceras de cada um e chegam à boca limpas de qualquer outro significado que não seja: bota! o mais são adornos locais. sintam-nas nesse contexto e se, por acaso, da vossa boca saíssem outras, lembrem-se de que o significado seria o mesmo.

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o fime

(torreira; 3 de setembro de 2016)

postais da ria (184)


o cigano

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onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama

lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos

a lama invade tudo

chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos

reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem

partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também

o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se

o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino

sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

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(torreira; porto de abrigo; 2016)

postais da ria (182)


da amargura

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o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão

quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro

os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas

fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha

é tempo de ser outro

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o colorido dos dias é agora outro

(torreira; julho; 2016)