depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho+
falo da solheira
(torreira; 2017)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho+
falo da solheira
(torreira; 2017)
as imagens têm nomes

houve os que partiram
há os que ainda
haverá outros amanhã
guardo muitos comigo
mais que os barcos
mais que as artes
os homens
as mulheres
a canalha
as imagens têm nomes
são gente
sinto-a poisada nos dias
(torreira, 2017)
durmo mal

safam-se as redes, limpa-se o lixo
sei demais
mesmo sabendo pouco
vivi muito
durmo mal
não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me
as ilusões são breves
por isso são
o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste
espero-te sentado
enquanto leio
não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal
não me embalas
com cantigas
(torreira; 2017)
o meu tempo

o meu tempo
é todos os tempos
fazemo-nos
ontem que relembro
para me alimentar
hoje onde sou para ter sido
e ajo para que
amanhã seja eu ontem ainda
futuro a que acrescentei
o meu tempo
o tempo que fiz
o tempo que me fez
o tempo que não deixei
que se fizesse sem mim

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2013)
com palavras

lavo as feridas
com palavras
escrevo-me
conto-nos
o fim é outro
início
com palavras
lavo as feridas
(torreira; 2016)
dúvida

a linda e o trovão cirandam ameijoa, sem qualquer dúvida
as palavras saram
as feridas do silêncio
ou
será o contrário
(torreira; 2016)
a dança das redes (8)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; 2017)
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
o grito por dentro

como se nada
ninguém
o olhar embebeda-se
de tanto
homem e mulher
camaradas
homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria
homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto
o silêncio
é um barco sem gente
oiço o grito
mais ninguém?

(torreira; o alar da solheira)