a beleza do sal (17)


as minhas raízes

0 ahcravo_DSC_3802 licínio

o licínio a mexer

as minhas raízes
são os meus princípios
em qualquer geografia

o valor da palavra
raiz aprumada que me alimenta

a noção de justiça
a minha voz o meu gesto

a solidariedade
o meu estar aqui

as minhas raízes
herdei-as e fi-las
por vezes doem-me

(armazéns de lavos; mexer; 2017)

crónicas da xávega (208)


arrancaram-lhe as raízes

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arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel

chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua

sabias que se pode gelar de verão?

não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

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(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

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o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

 

postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria

os moliceiros têm vela (237)


falo do moliceiro

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um barco
não tem raízes
é raiz

navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros

o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia