para além de


vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro

escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também

nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim

seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de

(torreira)

o safar das redes na arte solheira (I)


a dança do safar

na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.

durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.

olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem

(cais do bico; murtosa; 2010)

artes da ria


uma das artes de pesca utilizadas na ria é a chamada “chincha de pareja”. até meados do século XVIII, no sul de espanha, mais precisamente na catalunha esta arte foi utilizada com o aparelho da xávega.

a rede é arrastada por duas bateiras, varre o fundo da ria e destina-se à pesca da enguia, do choco miúdo, do linguado, do que vier.

uma das bateiras leva a rede que lança à ria ficando com a corda de “reçoeiro”, a outra leva a corda “mão de barca”, as duas lado a lado arrastam a rede que é do tipo de chinchorro.

normalmente a pesca pode durar toda uma noite, cerca de 12 horas, ou mais, até se apanhar caldeirada que justifique a pescaria. a companha é formada por 6 a oito homens, esta inclui uma mulher.

a rede, finalizado o cerco, é alada para a bateira que a carrega e todos os pescadores colaboram no alar manual e no safar do peixe e das algas. é um trabalho muito duro e repetido durante muitas vezes ao longo da faina.

penso que neste momento existem 3 “chinchas de pareja” na torreira e não sei se mais alguma na ria.

esta é a chincha do manel trabalhito, dono da bateira “lutar para vencer”.

a bateira da foto é a que arrasta a corda e à popa vai o filho do manel trabalhito, também manel, que nesse dia ia apanhar uma caldeirada de enguias para se despedir: ia para a pesca do bacalhau ganhar a vida.

é assim a vida dos pescadores da torreira: ganhar a vida no mar e subsistir na ria.

(manuel trabalhito – filho – e carlos tetinha; torreira; 2009)