postais da ria (141)


revisito-me

SONY DSC

corre a rede por entre os dedos

correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil

súbito
temporal
de tantos havidos

fui neles o mais
que soube

assisto-me sem
críticas de

revisito-me

SONY DSC

com o salvador belo, no meio da ria

(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)

 

postais da ria (139)


pão parco

0 ahcravo_DSC_8709_zé pedro safar bw

safar as redes da solheira para a plataforma

no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto

um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas

sonhar amanhã
um destino diverso  deste

estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

0 ahcravo_DSC_8709_zé pedro safar

fosse o peixe limo e boa a pescaria

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

postais da ria (135)


a capa

0 ahcravo_DSC_6901 domingos guerra e salvador bw

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

0 ahcravo_DSC_6901 domingos guerra e salvador

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)

postais da ria (134)


ser feliz aqui

0 ahcravo_DSC_3494 bw

caminho pelo olhar
e sonho

ignoro o por detrás
e fico-me

pela superfície vazia
onde tudo

pode ser o que eu
quiser

despedi da paisagem
o ruído

das gentes e seus dramas
esqueci

o indesejável saber da
injustiça

inventei ser feliz aqui

0 ahcravo_DSC_3494

(torreira; porto de pesca)

postais da ria (128)


cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana bw

um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

postais da ria (127)


regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana bw

depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)

o meu amigo rui


ao pescador da torreira

ahcravo_DSC_8777_rui_bw

reparar as redes da solheira

far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início

seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores

és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo

não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

ahcravo_DSC_8777_rui

as horas que fazem o dia são poucas

(torreira, porto de abrigo dos pescadores)