postais da ria (135)


a capa

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o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

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as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)

postais da ria (134)


ser feliz aqui

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caminho pelo olhar
e sonho

ignoro o por detrás
e fico-me

pela superfície vazia
onde tudo

pode ser o que eu
quiser

despedi da paisagem
o ruído

das gentes e seus dramas
esqueci

o indesejável saber da
injustiça

inventei ser feliz aqui

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(torreira; porto de pesca)

postais da ria (128)


cheio só de mim

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um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

postais da ria (127)


regressarão

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depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)

o meu amigo rui


ao pescador da torreira

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reparar as redes da solheira

far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início

seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores

és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo

não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

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as horas que fazem o dia são poucas

(torreira, porto de abrigo dos pescadores)