há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)
há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)
a capa

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão
não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto
à mesa saboreias
o que deles
olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos
outro repasto
para outro prazer
regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste
mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida
não contas a estória
lês do livro a capa

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes
(torreira; cirandar)
ser feliz aqui

caminho pelo olhar
e sonho
ignoro o por detrás
e fico-me
pela superfície vazia
onde tudo
pode ser o que eu
quiser
despedi da paisagem
o ruído
das gentes e seus dramas
esqueci
o indesejável saber da
injustiça
inventei ser feliz aqui

(torreira; porto de pesca)
cheio só de mim

um a um os “andares” vão entrando na bateira
braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram
olhos por dentro
dos olhos
estas memórias
queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar
mas nem isso
vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador
(torreira; alar da solheira; 2010)
regressarão

depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)
come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes
conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde
parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco
vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água
até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto
regressarão

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)
(torreira; solheira; 2010)
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
eu só só eu

foram-se os dias
foram-se amigos
laços afectos
pedaços de mim
semeados
arrancados
fui-me sendo por aí
mais um mais um
menos que nada
menos que eu
menos
eu só
só eu

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
ao pescador da torreira

reparar as redes da solheira
far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início
seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores
és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo
não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

as horas que fazem o dia são poucas
(torreira, porto de abrigo dos pescadores)
quentes e ….. (2)

a escoar água da bateira
foi um homem são
que escreveu o elogio da loucura
mas só um louco
pode escrever o elogio da sanidade

a ria dentro e fora
(ria de aveiro, torreira)