óscar miguel


o barco vai partir
as gaivotas
barcos de outros ares
esperam peixe na rede
sobras a rolar nas ondas

o barco vai partir
enfrentar as ondas
correr atrás do vento
voar atrás das nuvens
planar sobre as águas

sorte se
encontrar um cardume perdido
e o transformar em refeição

o barco vai partir
partimos com ele ?

só para ver
como a vida no mar é dura

(torreira; anos 90)

o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste

carlos padeiro – a ria por paixão


carlos padeiro

desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.

aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.

há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.

aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.

a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.

na torreira nasce-se pescador.

(murtosa – torreira – marina dos pescadores)

o arribar em dois momentos


1º momento

e todos se salvaram

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

2º momento

com as ondas a rebentarem em cima da ré do barco, a solução foi só uma:

os tripulantes saltaram todos do barco e foi feita a ligação dos cabos aos arganéis da proa e puxado o barco para cima.

à ré vai o arrais, marco, e agarrado ao castelo da proa o delmar viola.

o roçar na areia foi de tal forma intenso que foi necessário virar o barco em terra e aplicar uma nova forra ao fundo.

felizmente tudo acabou em bem

(torreira; 2010)

zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)

em louvor das serras


(resta-me crescer para a terra)

pedregulhos imensos borbulhas disformes
cobrem a terra a água nasce gelada para a
minha sede nuvens raras brincam estranhos
jogos selvagem meio rude paisagem é noite

as trutas aguardam a hora de beijar no espelho
da lagoa as migalhas ancestralmente os homens
juntam-se em torno do fogo o fogo cerca a água
chamados nocturnos oiço a tenda pequena
junta-nos o chão duro magoa os corpos vivos

é manhã o corpo entrego à água
refrescando o cansaço para melhor morrer
então cresço para a terra 
só as serras crescem para o céu

(macieira; serra da gralheira; 2008)

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)