do nascer ainda o sol descansado a ponte também ela a nascer começa de mãos dadas o mondego assiste será dia quando for porque agora é da minha janela
(figueira da foz; 2006)
(torreira; anos 90; a espera para ver e comprar)
virado para o mar olhando o longe recordo o ti borras pescador de outros tempos do barcos de quatro remos de tantas juntas que não conhecia mar que o impedisse de trabalhar se o mar fosse de vinho ia a pé até à américa dizia recordo o ti borras pescador e senhor dos mares recordo e não vejo lembrança dele ficou um beco com o seu nome que se apagará no tempo que começa a apagar-se o tempo não pode ser deixado a si próprio ainda não atingiu a maior idade
(o guiador da bicicleta; murtosa; s/d)
guiador guia-me ensinou-me a amar a ria de miúdo levava-me pelos canais da palavra ensinou-me o valor da verdade ensinou-me a dizê-la dos homens o respeito e o amor ao próximo em 1978 partiu a mim só me deixará quando eu partir também quando com ele bom dia senhor césar e companhia assim cresci na murtosa salvé césar gorim
(alberto estrela; torreira; 2006)
boa noite estrela soube pelo teu filho você deve conhecer o meu pai o estrela a frase continua a martelar-me a cabeça que tinhas partido ninguém sabe para onde mas todos sabem que não voltas sabes estrela a vida é feita de encontros e desencontros nós há muito que não nos encontrávamos vinha e não te via e pensava está para o mar era normal e vai continuar a ser normal porque para mim estrela tu estás no mar e é por isso que não nos encontramos um abraço do teu amigo cravo
o barco vai partir as gaivotas barcos de outros ares esperam peixe na rede sobras a rolar nas ondas o barco vai partir enfrentar as ondas correr atrás do vento voar atrás das nuvens planar sobre as águas sorte se encontrar um cardume perdido e o transformar em refeição o barco vai partir partimos com ele ? só para ver como a vida no mar é dura
(torreira; anos 90)
o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste
desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.
aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.
há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.
aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.
a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.
na torreira nasce-se pescador.
(murtosa – torreira – marina dos pescadores)