manuel castelhano. presente!


 

manel castelhano

ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista

a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“

assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão

vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local

( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.

falo da torreira)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

os velhos (II)


pouco a pouco

recuperam do passado os rostos

a memória

também ela se vai gastando no refazer de caminhos

os nomes

esvaem-se no tempo

como é que se chamava o nosso sargento ?

do que ontem ardia

hoje apenas algumas cinzas

o vento dos dias

pelo tempo a memória espalhou

são três

e à mesa do café jogam

cartas velhas de sebo

batotas antigas de casernas rancho marchas

lembras-te ?

são três e recordam

e assim se unem os velhos

xávega – o saco e a zorra


depois de se ter tirado todo o peixe do saco, de o limpar bem e sacudir é preciso carregá-lo na zorra ( espécie de trenó para areia), para o levar para seco, estendê-lo na areia e deixá-lo a secar.

depois de seco estará pronto a ser de novo carregado no barco (aparelhar) e a iniciar nova faina.

o transporte é sempre feito por recurso à zorra.

assim é na torreira, na praia de mira o esforço é feito por um tractor com um braço grande e colocado o saco num atrelado.

de praia para praia as técnica mudam. as designações também. falamos de designações, práticas e experiências que variam de praia para a praia, embora a arte de pesca seja a mesma e em pouco mudem os procedimentos

o saco e a zorra (I)

o saco e a zorra (II)

o saco e a zorra (II)

os velhos (I)


assim, como se ainda
os velhos atravessam o tempo de memória
com mão ágil lágrima grossa regressam

os velhos caminham caranguejos lentos
medusas de horas e anos

os velhos ajoelham calos e varizes
nas pedras gastas do passado

os velhos contam histórias antigas
sabedoria de séculos

os velhos afagam as crianças
macias as mãos grossas magras ossudas

os velhos arrastam-se e caem
cansadas as pernas fechados os olhos

os velhos às vezes já estão mortos
outras morrem ainda mais velhos

os velhos vivem e recordam
e não vivem e recordam ainda

os velhos já foram
por isso são

companha do pepolim


ir ao mar

vieram do furadouro pescar para os mares da torreira.

estabeleceram-se ao sul do molhe sul. o arrais, conhecido na torreira por “chico de ovar” é da família giesteira do furadouro, responsável pelo reerguer da xávega em medados do século XX na praia do furadouro.

o chico, não me canso de o repetir, é o melhor arrais que alguma vez vi trabalhar.