a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
o caminhar

arribam as mangas
o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso
segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha
saberás então
se apenas sombra o homem
no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo
(torreira)
de tanto dares

de tanto dares
a mão
ficaste sem ela
deste porque sim
receberam porque também
não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro
mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo
coisas de galinhas
ou galos de capoeira
(costa de lavos; companha do armando; 2017)
caminhos de areia

de praia em praia
outros os homens
a mesma arte
diversos os fazeres
percorro caminhos de areia
olhos postos nos homens
e no mar
sempre no mar
encontro homens
barcos redes
sal suor peixe
vou por aí
mas vou sempre sempre
para o mar
(torreira; 2016)
fotografar é

ele existe
eu existo porque o vejo
e tu existes
porque te imagino a vê-lo
fotografar é
transmitir existência
construir memória
deixar rasto

(torreira; 2014)
do meu fotografar

no tribunal do tempo
a fotografia é testemunha
(torreira; 2016)
desencontro

a escolha
a mão que deste
a mão que te deram
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)

como se numa dança
por entre as mãos
se faz o caminho da rede
(torreira; 2016)
estranho sabor

as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?
na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras
uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come
as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma
cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor
a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando
por momentos existimos
(torreira)