postais da ria (206)


para o meu amigo fernando nuno

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por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?

quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?

pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste

no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?

as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar

na ria não se faz vida
pois não zé?

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(torreira; 2009)

postais da ria (201)


não há futuro na ria

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maria josé moreirinhas, na sua tese de mestrado “SOLIDARIEDADE E SOBREVIVÊNCIA NA RIA DE AVEIRO” – editada em 1998, com patrocínio da câmara municipal da murtosa – escreve na página 167 “ Em 1994, na Torreira, apenas apareceu um intermediário (para a compra de ameijoa e berbigão; o resto do pescado é vendido em Pardelhas) que, como único comprador estabeleceu o preço que lhe convinha” ……

estamos em 2017

a praça de pardelhas já não existe, os intermediários agora são 2 e compram tudo: berbigão, ameijoa, choco, linguado, lampreia …. são eles que estabelecem os preços e, no caso do berbigão, definem ainda as quantidades e os dias da compra.

acabou-se a capacidade de os pescadores venderem num mercado concorrencial, com todas as consequências que dai resultam para os seus rendimentos. mais ainda, existem contratos “de fidelização” com os intermediários, com aplicação de “multa” em caso de venda a terceiros.

de todos os pescadores da torreira, dos dedos de uma mão sobram muitos depois de contarmos os que não têm contrato com um intermediário.

não escrevo, nem digo mais nada. quem lê que tire as suas conclusões.

a ria, o rio, a laguna, como lhe queiram chamar, tem uma saída para o mar, os pescadores da torreira também. aos mais novos resta-lhes ainda emigrar ou, com alguma sorte, arranjar emprego na pouca indústria que na zona existe.

não há futuro na ria

nota: para quem se interessar pela vida dos pescadores da torreira aconselho a leitura do livro com que abro esta crónica

mãos de mar (13)


as mãos que não vês

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as mãos do agostinho

mãos vazias
esculpidas pelo cinzel
do tempo

mãos de não ter havido
herança basta
apelido sonante

mãos salgadas
de tanto mar tanto suor
tanto serem

mãos com voz
mãos nossas ignoradas
mãos silenciadas

mãos mãos mãos
quantas na mesa o peixe
a carne o pão o vinho

mãos com rosto
mãos mãos mãos

olha as mãos
que não vês

(torreira; 2013)

mãos de mar (12)


utensílios primordiais

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utensílios primordiais
a navalha e o bordão
no repartir do trabalho
e do seu fruto

as mãos são
as mãos de tantos quantos
para além delas
habitam o tempo
gravado no bordão

escrita sábia esta
sem palavras
escultura elementar
em louvor dos dias

parto e já não sou tão pouco
sou mais um
vejo para além do que vejo
cresci

ganhei o mar que pressinto
para ser barco homem memória

(torreira)