dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
cristais de mar
beijada pelo sol
a água adormece
no leito do talho
cristalina acorda
no estremecer
de humanas mãos
é agora sal
frágil flor
ínfimas pedras
cristais de mar

(morraceira; tirar; 2016)
há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)
herança
dou-te o que me deram
serás não o que fui
mas mais muito mais
que doutras artes
mestre serás
serei em ti
a memória do gesto
do saber antigo
doutras vidas
herança de saberes
a que te deixo
farás por mim sal

(morraceira; 2016; rer)
a austeridade na terceira idade
é preciso salvar o país
ouviu
fez as contas à vida
e perguntou-se
quem me salva a mim
mas era tarde para fugir

(morraceira; enfeitar; 2016)
sal do mar
no primeiro dia do ano
seja do mar o sal
tempero dos dias a vir
sol que nos espera
sal do mar sol à mesa

(morraceira; rer; 2017)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
o milagre do sal
vamos encaminhando
a água
até chegar aos talhos
em dias de sol
forma-se o sal que nós
com trabalho e suor
tiramos
como é que a água
se transforma em sal
isso é milagre
assim me explicaram
de forma clara e simples
não ganham que baste
para contratar consultores
que lhes expliquem
o milagre

rer
(morraceira; 2016)
achega

achegar
fácil julgar o ontem
com os olhos de hoje
tão fácil que até tu
de juiz te vestes
papagaio
(morraceira, salina dos doutores; 2017)

enfeitar
sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória
não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não
sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram
então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos
a desconstrução da beleza
é criminosa
(morraceira; 2016)