postais da ria (94)


quero-te barco

olhar é viver

olhar é viver

que vejas para além
da ilusão

que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre

que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas

de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo

quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

(torreira; 29/08/2015)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

regata dos chinchorros, s. paio, 2013


rui cruz, o primeiro fotógrafo, em 30 anos a estar dentro de uma bateira no decorrer da regata

rui cruz, o primeiro fotógrafo em 30 anos, a estar dentro de uma bateira no decorrer da regata

há muitas formas de estar com uma máquina nas “unhas” e fotografar a regata de chinchorros, ou bateiras de bicas, a remos.

– pode-se ficar em terra e fazer registos magníficos da preparação e da chegada

– ou ir para o meio da regata, viver a emoção e sentir a adrenalina, como disse o nelson silva, e, eventualmente fazer alguns registos.

são duas formas de estar: fazer parte da festa ou assistir à festa. não tenho dúvidas, com a nortada que fazia e as condições em que decorre a regata, que os melhores registo, provavelmente com mais impacto, são os feitos na “beirada” capturando o esforço final das equipas – veja-se alguns registos do antónio tedim.

dentro de uma bateira é preciso ter em conta a forma como decorre a regata:

– 8 bateiras partem da margem oeste da ria, lado do mar no dizer dos pescadores, rebocadas habitaulamente

– do outro lado da ria, a nascente, ou do lado da serra, estão 8 estacas espetadas no fundo da ria, junto a cada uma das quais se deve posicionar cada concorrente

– a distância entre bateiras é significativa e torna-se muito difícil conseguir uma vista do conjunto

– fotografar detrás das bateiras, para capturar os rostos, é uma solução que, atendendo à hora a que se realizou a regata, 17 horas, produz muitos contra-luz

– resta-nos fotografar de frente, os mais atrasados, ou de lado. focando sempre a atenção numa bateira.

registe-se ainda que a regata demora cerca de 15 minutos e só vendo é que se sente a velocidade que estes homens são capazes de imprimir a uma bateira. 12 braços, quantos motores?

“onde está a linha do horizonte?”, perguntava o nelson silva. a baixo e acima! era disparar e ver depois. a correr com a “marola” que se fazia sentir, apontar em frente era apanhar molha nas máquinas e isso ninguém queria.

o rui cruz, que conseguiu ir dentro de uma bateira, penso que não fez nenhuma foto, ou muito poucas.

ficam assim os registos possíveis de momentos inesquecíveis.

ganharam os melhores, outros terão deles as fotos, nós “curtimos nas horas” e molhámo-nos pra caraças. foi um dia grande, apreciem e procurem sentir o que está por dentro das imagens.l..

nota: em todas as imagens, durante a edição, foi endireitada a linha do horizonte e feito o recorte possível

a travessia para o local de partida, a reboque

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momentos da regata, em que há sempre mulheres a mostrarem que também são capazes de pegar num remo

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o lento caminhar dos dedos


o safar do salvador

 

sabes tu
que pensas tudo saber
o que sabem as mãos
e o que sabem fazer?

lentas, hábeis
acariciam as redes
safam-nas de algas
limpam-nas de limo
sem pressas de urbano

sabes tu
que tudo sabes
que tudo tem o seu tempo
e todo o tempo cabe
em duas mãos de trabalho
em duas mãos que cantam
odes à ria
erguendo no tempo
um templo
onde orar é outra forma
de pescar?

sabias tu?

as redes da solheira


 

 

salvador belo

 

admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes

com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água

meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores

(torreira – salvador belo)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

carlos padeiro – a ria por paixão


carlos padeiro

desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.

aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.

há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.

aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.

a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.

na torreira nasce-se pescador.

(murtosa – torreira – marina dos pescadores)

zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)